A cisnormatividade dos artigos de opinião do Gazeta do Povo

Não é preciso acreditar que pessoas trans nasçam trans ou que a identidade de gênero seja imutável para defender perspectivas afirmativas. Digo isso para refutar um artigo de Walt Heyer traduzido e publicado no Jornal Gazeta Do Povo, chamado “Não se deixe enganar: crianças não nascem transgêneros” (mais um artigo entre os milhares de artigos transfóbicos e/ou cisnormativos publicados por este jornal).

É um verdadeiro contrassenso ser contra as abordagens afirmativas e dizer que isso se dá em nome da possibilidade de escolha do paciente. Se você diz defender a perspectiva de escolha do paciente é a abordagem afirmativa que você deve defender.

Mas o que é uma abordagem afirmativa? Ela se opõe a abordagens ditas reparativas ou restaurativas, que visam manter, a despeito das demandas dos pacientes, a identificação com o gênero designado ao nascer. Percebam o viés destas perspectivas, pois elas não consideram as identificações trans igualmente legítimas e passíveis de escolhas como as identidades cis.

Como bem pontuam Ashley e Baril, em uma tradução que fiz recentemente e publiquei no meu medium, “o objetivo da terapia afirmativa de gênero não é a transição (…) o objetivo é ouvir a criança e decifrar, com a ajuda dos pais ou cuidadores, o que a criança está comunicando sobre a identidade de gênero e a expressão de gênero”.

Abordagens não afirmativas no tratamento da disforia de gênero são prejudiciais porque precisamente ignoram a autonomia do paciente e força os jovens a se identificarem com o gênero designado ao nascimento.

A perspectiva afirmativa não possui nenhum viés de imposição da identidade transgênera como faz parecer a perspectiva de Heyer. Ela apenas não assume que uma identidade transgênera é a priori menos desejada que uma identidade cisgênera. As abordagens não afirmativas, ao contrário, são enviesadas pela cisnormatividade.

Simplesmente não precisamos dizer que a identidade de gênero é imutável e biológica para defendermos a abordagem afirmativa. É precisamente porque entendemos que a identidade de gênero é uma construção subjetiva e social (e portanto, não imutável) que advogamos por esta abordagem, pois ela permite com que os jovens e crianças vivenciem e expressem suas identidades de gênero para além do cumprimento das expectativas cisnormativas de coerência identitária (estas sim, baseadas na ideia de que a identidade cisgênera é imutável pois “natural e normal”).

Existem sim evidências científicas de que as alterações corporais realizadas por pessoas trans são benéficas. Afirmar que elas são meramente desnecessárias, como faz o autor, é ignorar evidência científica. É simplesmente falso alegar que exista uma onda de pessoas arrependidas dos procedimentos que realizam. Além disto, precisamos sermos críticos de perspectivas que, a partir de tais alegações, instigam pânicos morais sobre a existência públicas das pessoas trans e das identidades trans na sociedade.

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