A correlação entre preconceito e patologização das identidades trans: qual a relação?

NURPHOTO VIA GETTY IMAGES/ Huffpost.

Winter et al (2009) realizam um estudo em diversos países através de entrevistas em que foram abordados diferentes aspectos de como as pessoas compreendem as pessoas trans e a variação/transição de gênero. Perguntas como “você acha que mulheres trans podem trabalhar com crianças?”; “pessoas trans são uma influência negativa para as demais?”; “devem ser aceitas pela sociedade?” e “aceitaria um membro da sua família se assumindo como transgênero?” foram feitas, além de se os entrevistados achavam que ser trans era uma doença mental.

Os autores concluem que opiniões negativas, atitudes discriminatórias e desaprovadoras em relação às pessoas trans e suas identidades estão fortemente associadas à crença de que pessoas trans sejam mentalmente doentes. Isto é, a adesão a ideias preconceituosas contra pessoas trans está associada à crença de que identidades trans sejam um transtorno mental. Isso quer dizer também que as pessoas que não acreditam que as identidades trans sejam um transtorno mental estão mais predispostas a serem mais positivas em relação ao reconhecimento e inclusão de pessoas trans na sociedade.

Os autores fazem então uma discussão muito interessante sobre essa correlação. Eles dirão que correlação não implica causalidade, e isso se aplica também aqui, afinal, não necessariamente ou automaticamente podemos concluir que a crença de que pessoas trans são doentes mentais causa o preconceito e discriminação transfóbicos e vice-versa (ou seja, que ambos estabeleçam uma relação de causalidade). Afinal, sabemos que grande parte da aceitação social, assim como a possibilidade do próprio acesso a alterações corporais assistidas, em um contexto profundamente hostil a pessoas trans se deu justamente através de um discurso biomédico com fortes tendências psicopatologizantes. Acreditar ainda que as atitudes preconceituosas contra pessoas trans decorreria apenas da patologização, por si só, também seria uma ingenuidade.

No entanto, assumir por outro lado que a ligação entre a adesão à crença de que identidades trans são patológicas e atitudes discriminatórias seja apenas uma relação espúria ou meramente aleatória também não parece muito crível. É por isso então que os autores se permitem tecer algumas hipóteses a respeito desta correlação, tais como: a crença de que identidades trans são doenças mentais pode ser consequência ou causa de atitudes discriminatórias? Os autores afirmam que a compreensão da identidade de gênero de pessoas trans como uma doença mental é capaz de funcionar como uma forma de tentar racionalizar (e mesmo justificar) os preconceitos prévios em relação às identidades trans. Nas palavras dos autores (ibid., p. 113):

Como sempre, ao interpretar dados correlacionais, é necessária cautela; as correlações nem sempre revelam relações causais simples. Por um lado, a crença de que a variação de identidade de gênero é uma doença mental pode promover diretamente o preconceito contra pessoas trans. Por outro lado, os participantes já preconceituosos contra as variantes de identidade de gênero podem basear-se na crença de que essa variação é uma doença mental, a fim de racionalizar o seu preconceito. Uma terceira possibilidade é que o vínculo seja totalmente espúrio, uma ligação artificial em que ambos fenômenos tem uma terceira variável sem que as duas tenham qualquer relação causal mútua, em definitivo. Deixando de lado essa terceira possibilidade, acreditamos que as nossas descobertas levantam implicações importantes para a patologização psiquiátrica da variação de identidade de gênero. Se a patologização psiquiátrica da variação de identidade de gênero promove o preconceito transfóbico ou o mantém, fornecendo uma maneira para os que já são preconceituosos racionalizarem esse preconceito, a consequência é que a patologização da variação de identidade de gênero pode facilitar a exclusão social e econômica. Por sua vez, a exclusão pode (ironicamente) prejudicar o bem-estar físico e mental das pessoas patologizadas e contribuir para patologias muito mais substanciais como isolamento social, ansiedade social, depressão, impotência, desesperança, comportamentos de risco e autolesão.

Referência:

WINTER, Sam et al. Transpeople, transprejudice and pathologization: A seven-country factor analytic study. International Journal of Sexual Health, v. 21, n. 2, p. 96–118, 2009.

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