A HipóteCis Nula

Por Natalie Reed. Tradução por Beatriz P. Bagagli. Leia o texto original, em inglês.

“Você está certo, Cliff. Você não pode provar quem você é. Nenhum de nós pode. Se tentarmos provar que existimos, seremos apenas tolos. E se pedimos às outras pessoas que nos digam o que nós somos de verdade, perdemos tudo.

Cliff … ouça-me. Tudo o que você pode fazer — tudo o que qualquer um de nós pode — é tomar uma decisão. O que você deve dizer, de toda forma, é que ‘é isso o que eu sou. Eu sou o Cliff Steele e eu sou um ser humano’”

-Kate “Coagula” Godwin, Doom Patrol # 74, de Rachel Pollack

Quando você passa o tempo suficiente com pessoas trans, conversando, compartilhando, relembrando, contando histórias, reclamando sobre todas as coisas irritantes que os grues fazem, articulando suas experiências, ouvindo a de outras pessoas e encontrando estas angústias de reconhecimento que te asseguram (finalmente) que não é / não era uma coisa exclusiva do seu próprio cérebro divergente, você começa a reconhecer a existência de pontos comuns. Temas recorrentes. Motivos. Certas histórias que são recontadas de novo e de novo ao longo de nossas vidas, variando os gêneros discursivos, os cenários e os protagonistas principais, mas não o arco.

Entre elas estão as histórias de negação. Os métodos que usamos para nos convencer de que não é possível que sejamos trans de verdade, que nós simplesmente devemos estar cometendo um erro. Eles ecoam os conceitos que circulam pela sociedade cis e são usados ​​como um meio de nos invalidar. “Provavelmente é apenas uma esquisitice, uma coisa sexual”, “é apenas uma fase … se eu simplesmente me estabelecer com uma mulher, talvez ter alguns filhos e aprender a ser um bom homem, isso vai embora”, “todo mundo não quer ser do sexo oposto em algum nível?”, “eu deveria apenas aprender a viver como homem feminino”, “eu só tenho que aprender a ser homem, ser mais masculino, isso vai fazer com que isso vá embora”, “será que eu não sou só um homem gay que odeia a si mesmo?”, “será que eu posso me vestir com roupas do gênero oposto apenas nos fins de semana? Isso será o bastante”, “é apenas o meu asperger”, “é apenas meu TOC”, “é só a minha depressão”, “é só a minha falta de confiança”, “é apenas o meu ódio à minha identidade”, “apenas…”, “é só…”.

O aprofundamento desta denegação é a suposição de que, para aceitarmos a possibilidade de sermos trans, temos que provar isso para nós mesmos. Isso novamente ecoa estranhamente com as invalidações externas, as demandas e as expectativas colocadas sobre nós, como no modelo do gatekeeping*. “Mas como eu sei se sou trans? E se eu estiver errado? E se eu estiver cometendo um erro? E se me arrepender?”.

Essas dúvidas tipicamente persistem bastante durante o processo de transição inicial e geralmente não diminuem até que os processos médicos, físicos (com as suas devidas alegrias, conforto e alívio) tenham começado. Quase todos nós somos eventualmente abordados por uma pessoa que está no começo da transição e que compartilha essas mesmas dúvidas conosco. E todos já ouvimos isso antes um milhão de vezes. Todo mundo, até mesmo os membros mais confiantes, seguros, extrovertidos e orgulhosos da nossa comunidade, já estiveram em um momento de insegurança, em que ainda estavam lutando para superar a bagagem de auto-negação que carregavam até então, uma bagagem tão meticulosamente construída, durante grande parte de nossas vidas.

O que é interessante, para mim, pois lança muita luz sobre os modos incrivelmente estranhos pelos quais a crença e a dúvida operam na mente humana, sobre como essas pequeninas coisas são lindamente irracionais e algo para os céticos explorarem como uma pedra de toque, é que muito dessa negação irracional pode ser enquadrada em um nível de ceticismo adequado e lógico que uma decisão tão drástica exige.

Afinal de contas, se nós vamos arriscar tanto, apostar tanto em um jogo, em uma “decisão” tão monumental, certamente devemos abordá-la cuidadosamente e nos certificar que estamos com certeza, certo? Não deveríamos estar procurando a prova de que somos trans antes de arriscarmos nossas vidas inteiras se este for o caso?

Bom, talvez … se ao menos a prova de ser trans fosse algo realmente possível, para além da simples prova como a experiência subjetiva da sua própria identidade e gênero enquanto tal. Mas, mais importante: nós nunca nos pedimos a “prova” de que somos cis.

Cis é tratado como a hipótese nula. Não requer nenhuma evidência. É apenas o dado assumido. Todos os suspeitos são presumidos cisgêneros até que se provem culpados de transexualidade em um tribunal doloroso de auto-exploração. Mas esta não é uma maneira viável, lógica, “cética” de abordar a situação. Na verdade, não é um caso em que uma hipótese é co-determinada por uma hipótese nula (como no caso em que “há um bule voador orbitando a Terra” vs. “não há um bule voador orbitando a Terra”), mas sim de duas hipóteses em antagonismo. Duas hipóteses que deveriam ser referidas a um mesmo padrão e terem suas probabilidades determinadas reciprocamente.

Quando a questão passa a ser reformulada desta forma de repente essas auto-negações, aquelas demandas ridículas, dolorosas e autodestrutivas que colocamos em nós mesmos para encontrar “provas” de que somos trans de “verdade” subitamente começam a parecer muito menos válidas e racionais. Quando substituímos a pergunta “Eu tenho certeza de que eu sou trans?” para “Com base na evidência disponível e o que meus pensamentos, comportamentos passados ​​e sentimentos sugerem, o que é mais provável: que eu seja trans ou cis?” O que antes era uma questão impossível de responder é substituída por uma resposta que é dolorosamente óbvia. Pessoas cis podem se perguntar sobre ser do sexo oposto, mas elas não sonham obsessivamente com isso. Pessoas cis não examinam constantemente a questão da transição, repetidas vezes, de novo e de novo, ao longo de suas vidas. Pessoas cis não se encontram neste tipo de crise. Pessoas cis não passam secretamente todos os seus aniversário desejando acordar magicamente transformadas no sexo “oposto”, nem passam anos desenvolvendo variações cada vez mais precisas de como gostariam que esse desejo fosse cumprido. Pessoas cis não viram a noite na internet pesquisando secretamente questões relacionadas a transição e olhando secretamente com que idades as pessoas transicionaram, com quanto dinheiro elas tinham, o quanto os recursos delas se assemelham aos seus, e tampouco tentam descobrir como esse processo será com você mesmo. Pessoas cis não ficam enormemente animadas por verem filmes aleatoriamente na TV à noite realmente muito muito terríveis apenas pelo fato deles incluírem temas relacionados ao trânsito de gênero, como “Switch” ou “Dr. Jekyl And Mrs. Hyde”, e passam a assisti-los. Etc.

Faz sentido abordar questões com cuidado e lembrar-se de tomar uma atitude de questionamento, em hesitar e duvidar acerca de uma questão. Mas isso só funciona como um ceticismo construtivo quando as questões não estão enviesadas, quando o ceticismo é igualmente distribuído. Tomar a ideia de ser trans a partir de um padrão altamente crítico de investigação, mas não tomar a ideia de ser cis a partir de qualquer padrão crítico de investigação que seja, não é um ceticismo racional, pois há uma tendência que te leva a uma perspectiva e conclusão particulares que você está privilegiando injustamente e a tentativa de racionalização de um viés cultural (e medo psicológico). Questionar um sem questionar o outro não é mais um exemplo de ceticismo construtivo e crítico do que questionar os motivos de lucro e o viés da grande indústria farmacêutica, mas assumir a crença de que os praticantes de medicina alternativa, naturopatas e homeopatas não têm nada além de boas intenções. Ou como tentar buscar furos na teoria da evolução, simplesmente deixando o Livro Sagrado como o presumido rochedo da verdade.

Uma boa cientista não questiona rigorosamente apenas uma teoria particular, deixando todas as outras teorias incontestáveis. Uma boa cientista pesa todas as hipóteses concorrentes umas contra as outras em pé de igualdade, igualmente exigentes de provas. Pelo menos, se ela falsificar algo, ela sabe limitar a conclusão a “esta hipótese em particular é incorreta”, não subitamente assumir que uma hipótese diferente que ela por acaso imaginar deva, portanto, ser correta.

E você não pode falsificar algo que se define inteiramente de forma subjetiva como a identidade de gênero, de qualquer forma. E se você não pode falsificar uma reivindicação, é um pouco bobo exigir que seja provado.

Este tratamento da cisgeneridade como algo totalmente não-marcado, tão profundamente incorporado como o padrão assumido, o “normal” privilegiado, representa conceitualmente a hipótese nula, o caso em que só se deve ser refutado e sendo que nunca ele mesmo é considerado como algo que precisa ser questionado, provado, algo que alguém deva estar “seguro de”, o que acaba por tornar a cisnormatividade uma força tão poderosamente enraizada em nossa cultura que é quase totalmente inextricável. Isso alimenta as atitudes relacionadas ao engano e a revelação (“por que você não me disse que você é trans?” “Por que você não perguntou?” “Por que eu perguntaria?”); à “passabilidade” (“mas você não parece trans!”); à nossa representação (Por que apenas os personagens trans explicitamente trans são considerados personagens trans? Algo realmente nos impede de imaginar Princesa Peach, Aloe & Lotus, Han Solo ou Appolonia como transexuais?); à sexualidade; à nossas responsabilidades políticas e sociais e interpessoais … são tantos desdobramentos da ideia de que a menos que você prove que você é trans, você é cis, e é assim que as coisas são.

E com certeza todo o procedimento gatekeeping é uma externalização extrema desta cisnormatividade arraigada, o pressuposto de que ser cis é tão incrivelmente “normal” que é a hipótese nula, que o ônus da prova recai inteiramente na hipótese de que o paciente é trans, que ele portanto deve cumprir uma série de critérios rigorosos antes que suas reivindicações de sua identidade de gênero sejam aceitas como verdadeiras. Em nenhum momento do modelo gatekeeping convencional o médico é instado a fornecer qualquer evidência que comprovasse a posição contrária, de que o paciente realmente é cis. E se um médico ou terapeuta sugerir alguma teoria possível sobre porque um paciente cis se “enganaria” em acreditar ser transgênero, novamente o ônus da prova recai sobre o paciente ter que falsificar a sua própria afirmação ao invés de falsificar a hipótese do médico.

Toda essa ideia de que sua identidade subjetiva não pode ser legitimada a menos que você seja capaz de apoiá-la com evidências objetivas, é uma situação bastante horrível de se estar, especialmente quando você mesmo está se impondo isso, dado que toda “prova” de que você seja trans depende inteiramente da experiência subjetiva. O que prova que você é trans é apenas entender-se como trans. Ter que lidar com gatekeepers, familiares e as numerosas forças externas que nos negariam a nossa identidade acaba por não ser uma situação tão paralisante porque pelo menos nós sabemos, e nós somos a prova, e além disso, é simplesmente uma questão de descobrir o que eles pensam que contaria como “prova” e o que exatamente eles precisam ver ou ouvir para acreditar em você (qualquer coisa). Mas quando esta situação é imposta sobre você mesmo, partindo do pressuposto que a única certeza real possível é aceitar-se e entender-se como trans, mas você se recusa a se aceitar e se entender como tal até ter certeza de que você seja mesmo trans, você acaba por criar uma situação impossível para si mesmo.

Talvez algum dia tenhamos varreduras cerebrais que possam analisar as partes do cérebro que são “atípicas” (ou, como eu costumo dizer, extraordinárias) em indivíduos que vivenciam experiências de variação de gênero e, portanto, determinar se você possui ou não as características neurológicas que indicam uma predisposição à transgeneridade, e o melhor que se poderia fazer é determinar uma predisposição. Tal sistema nunca poderia ser usado eticamente como um instrumento de diagnóstico singular e definitivo, e dada a subjetividade e a natureza autodeterminada do gênero, ainda haveria uma abundância de “falsos positivos” e “falsos negativos” (embora esses conceitos não fazerem mesmo muito sentido). A responsabilidade de se dar permissão para se auto definir como uma mulher, um homem, intermediário, ambos, nenhum, ou a parte, ainda repousaria sobre seus ombros. As mesmas perguntas permaneceriam. E nós apenas inventaremos novas maneiras de racionalizar isso e manter a negação.

Verdadeiramente, você sempre poderá encontrar pequenos “e se”. Pequenas incertezas. Pequenos pedaços de você que TALVEZ não estejam TOTALMENTE alinhados de acordo com gênero o qual você está fazendo a transição (ou deseja uma transição). Aspectos de quem você é que não se enquadram na narrativa arquetípica, perfeita e do “verdadeiro transexual”. Ninguém se encaixa perfeitamente nesta narrativa. E, sim, talvez, filosoficamente falando, uma determinada mulher trans possa em algum nível “ser realmente um cara” e um determinado homem trans poderia, de alguma forma, “ser realmente uma garota”. Mas você sabe, mesmo se isso É verdade para você, e você não é “trans de verdade” ou não é “trans o suficiente”… qualquer que seja a parte de você mesmo, qualquer seja o fragmento que te faz concluir que você seja “realmente” cis ou “realmente” o seu sexo assignado, tudo isso não significa realmente absolutamente nada para além do que significa para você. E, francamente, se ser “na verdade” cis e “na verdade” o seu sexo assignado, ser o que você é “de verdade”, não está fazendo um trabalho suficiente para fazer você ser feliz e estar bem e em casa com seu corpo, então você deveria dizer pra todo mundo se fuder. Vá em frente e se dê a permissão para “ser algo que você não é”, com ou sem provas, se isso for o que lhe dará a chance de ter um semblante de felicidade, conforto e satisfação nesta vida. Isso é tudo o que temos, afinal. E ninguém consegue julgar sua identidade, sua sinceridade e legitimidade, senão você.

Quando começamos a procurar aprovação de nossos sentimentos e garantias de que eles são reais e que eles importam, além da certeza e da realidade subjetivas de experimentar esses sentimentos, estamos perdidos. Bastante e verdadeiramente perdidos, procurando um caminho que simplesmente não conseguimos encontrar. E quando nós fazemos o que é preciso para ser feliz com a condição da aprovação e garantia de terceiros, nós nos resignamos para a infelicidade. O self, uma identidade, um gênero … essas coisas não são realmente fixas, fatos concretos no mundo. Elas são meios. Processos pelos quais nos entendemos e relacionamos com as coisas, articulamos e nos expressamos. Você nunca terá certeza, além da certeza que você mesmo afirma, ou qualquer outra garantia além do sentido do eu sou. Isso é o que eu sou. Isto é o que estou experimentando. É isso que eu quero. Isto é o que eu preciso fazer.

Essa é toda a evidência que você terá, e todas as provas que você precisará.

  • Nota de tradução

Gatekeeping refere-se a noção de que alguém ocupa um espaço de poder capaz de decidir ou determinar o pertencimento de outra pessoa a uma comunidade, identidade ou o acesso a direitos. No contexto médico relacionado às questões trans, refere-se à restrição do acesso às formas assistidas de alteração corporal, como acompanhamento hormonal e cirúrgico, negando o reconhecimento das identidades trans em suas singularidades e a auto-determinação com base na ideia excludente e ultrapassada do diagnóstico de “transexualidade verdadeira”.

Natalie Reed é uma mina trans queer, sobrevivente de (…), ex-viciada, escritora e ativista que atualmente vive em Vancouver, BC. Escreve sobre feminismo, teoria de gênero e direitos da população trans e queer, questões sobre estupro/assédio, problemas de dependência e drogas, dentre outras preocupações de justiça social, como direitos das trabalhadoras sexuais e dos prisioneiros. Gosta também de cultura pop e quadrinhos. Natalie pode ser encontrada em sincerelynataliereed@gmail.com, no Twitter @nataliereed84. Seu trabalho anterior pode ser encontrado no freethoughtblogs.com/nataliereed ou no skepchick.org.

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