A lógica individualista da “conveniência” — gênero e sexualidade

Quando discutimos se uma identidade de gênero ou orientação sexual podem estar sendo “coniventes” com as normas sociais.

Discursos extremamente problemáticos frequentemente usam a noção de “conveniência/conivência”. Dizem por exemplo que quando uma pessoa bissexual se relaciona/está se relacionando com uma pessoa de gênero diferente ela de alguma forma estaria sendo “conivente” com a heterossexualidade, já que seria uma posição de “conveniência” para uma pessoa bissexual se relacionar com pessoas de gênero diferente. Li também de uma feminista transfóbica radfem que uma pessoa trans, transfeminina/mulher trans, no caso, “era homem no emprego”, pois isso seria “conveniente” para ela não ser expulsa do trabalho.

Ora, tais raciocínios que apelam para uma suposta “conveniência/conivência” são eles mesmos criticáveis. Esta “lógica” não é, ela mesma, crítica das normas de gênero e sexualidade: ela é na verdade conivente com as mesmas normas que julgava criticar.

É bifobia, é transfobia sim. É um olhar que desconsidera as vulnerabilidades pelas quais essas pessoas estão expostas, além de culpabiliza-las, a nível individual, por questões estruturantes. Desconsidera que suas identidades não são acessórias a suas formas concretas de existência social, que não são indiferentes às formas pelas quais esses grupos demandam reconhecimento de suas existências.

Se formos partir dessa lógica de “conveniência/conivência” nem haveria sentido para a existência da própria homossexualidade. Afinal de contas: “é mais fácil” e por isso, mais “conveniente” uma pessoa ser simplesmente heterossexual ao invés de homossexual. Teria coisa mais “conveniente” que “escolher” ser hétero?

Dizer que seria “conveniente” uma pessoa trans ser “apenas” trans para fora do espaço de trabalho deveria ser justamente argumento para denunciar a existência social e estruturante da transfobia. Muito me espanta que a rad que tenha falado isso tenha tentado usar isso como suposta forma de provar que pessoas trans seriam “coniventes” com as normas sociais. Ora, isso não é capaz de “provar” que pessoas trans podem acessar emprego se fingirem não serem trans (como se num passe de mágica da retórica a transfobia sumisse por combustão espontânea!)… mas sim que nossa sociedade é desde, às raízes, profundamente transfóbica, injusta, excludente para com pessoas trans!

O fato de uma mulher trans não poder se assumir como ela é no ambiente de trabalho não pode mostrar outra coisa que não a injustiça social, opressão, exclusão, pauperização sistemática de um grupo social específico e o preconceito transfóbico. Essa deveria ser a única conclusão do “argumento” da rad. A única coisa que a rad realmente foi capaz de revelar foi que sua análise centra-se no indivíduo para atribuir a “culpa” pelas próprias opressões estruturais. Sabe como isso se chama? Individualismo liberal.

Uma pessoa “potencialmente” trans que faz “cisplay” e é lida como cis não está exposta a inúmeras violências que pessoas que são lidas como trans estão expostas. Reconhecer isso não implica a possibilidade de realizar outros recortes analíticos. (Poderia complexificar muito a discussão sobre essa “leitura”, alertando para casos de pessoas trans que tem passabilidade cis, para pessoas que são lidas de formas diferentes a depender do contexto em que estão, além do fato de que a leitura por si só não prever todas as possibilidade concretas pelas quais uma pessoa está exposta a uma situação de vulnerabilidade social). Uma pessoa que não demanda alteração de documentos e assistência médica para alteração corporal pode não estar exposta às mesmas situações de vulnerabilidade daquelas pessoas trans que demandam. Posto isto, vejamos…

Desconsiderar completamente qualquer traço identitário transgênero numa pessoa que aparentemente, “a rigor”, não seria trans “de verdade” pode nos deixar cegos para aspectos potencialmente importantes tais como… políticas de alianças a partir da multiplicidade, solidariedade, alteridade… e quando digo alteridade significa compreender o aspecto revolucionário da transgeneridade vista não como uma especificidade resumida de um grupo absolutamente seleto de pessoas, mas algo que possa dizer a respeito ao questionamento da própria coerência da posição cisgênera no seu interior. Quer dizer: a transgeneridade diz respeito intimamente às pessoas cis, pois é capaz de mostrar o caráter precário desta posição identitária, de questionar as ilusões de fixidez e naturalidade.

Precisamos de uma análise melhor acerca das vivência de entremeio ou fluidez. Apontar que a pessoa x que faz o tal “cisplay” deixa de sofrer algumas violências de cunho transfóbico não pode nos impedir de compreender criticamente as outras vulnerabilidades que esta mesma pessoa está exposta. A própria condição de ininteligibilidade que decorre das posições de entremeio identitário corresponde a uma vulnerabilidade específica.

Vejamos o tal exemplo da pessoa que faz “cisplay” para não ser demitida do trabalho: compreender as vulnerabilidades que esta posição acarreta significa reconhecer a situação de insegurança que esta pessoa está exposta, por exemplo. No caso de uma pessoa designada como homem ao nascimento, isso significa que a feminilidade expressa a princípio fora dos muros do trabalho pode a todo momento a “comprometer”. Isso implica viver sob constante medo, sob constante negação de si. Isso pode acarretar sofrimento psíquico. Até que ponto isso é “conveniente”? Se estamos afeitos a apontar as possíveis situações de privilégio ou ausência de violências que a posição de “cisplay” acarreta, temos também que estarmos igualmente afeitos para considerarmos eventuais outras situações de vulnerabilidade dessa mesma posição.

A nossa teoria deve ser capaz de dar conta de explicar as mais diferentes situações de precariedade social, e isso implica em compreender que uma mesma posição pode, ao mesmo tempo, conter tanto um traço de “conveniência” quanto de vulnerabilidade. Aliás, levar isso em consideração é justamente levar a sério a noção tão dita hoje em dia sobre a “interseccionalidade”.

Continuando o caso hipotético, essa mesma pessoa que vive até então no “cisplay” pode passar a considerar a precariedade de sua situação insustentável a partir de certo momento de sua vida — que apenas ela poderá determinar. A reivindicação de uma identidade transgênera passa a ser fundamental para sua forma de conviver em sociedade, o que inclui o seu ambiente de trabalho ou estudo. Essa mesma pessoa poderá encontrar uma posição de “conveniência” agora por meio da passabilidade cisgênera.

Percebam que existem apenas duas posições ideais de “conveniência” possíveis neste caso: ou a pessoa se encaixa nas expectativas do gênero que lhe foi designado ao nascimento (e então ser constantemente “assombrada” por possíveis traços que façam alusão a uma identidade trans), ou então, a pessoa agora devidamente assumida publicamente como trans deve cumprir rigidamente com expectativas de gênero hegemônicas por meio da passabilidade cis (e correr o constante perigo do misgender e sofrer transfobia explícita caso falhe em cumprir com a passabilidade). Não é conveniente para a pessoa que faz “cisplay” que signos destoantes do seu gênero designado apareçam para a assombrar no ambiente de trabalho, assim como não é conveniente que pessoas assumidamente trans sejam lidas como trans, isto é, não sejam passáveis como pessoas cis nos mais diversos espaços sociais.

Conseguem ver a complexificação deste debate? A assimilação de pessoas trans nestes dois cenários é sempre precária, pois a qualquer instante podemos ser lembradas da nossa abjeção. O problema, em todo caso, é sermos vistas como trans ou vistas por meio de signos que façam qualquer tipo de alusão à transgeneridade ou à falta de sentido. A cada posição de “conveniência”, corresponde outra de vulnerabilidade. Isso porque a transfobia é estruturante, não contingencial.

Sabe então o que implica tomar uma perspectiva materialista nisto tudo? Tirar o centro da análise do indivíduo. Tomar como centro de análise a “conveniência individual” pela não transição obscurece a compreensão da transfobia como fato estrutural e social. Dizer que existem pessoas em posição de “conveniência” com as normas não nos ajuda muito mobilizar coletivamente a luta contra opressão, não nos ajuda muito a desenvolver teoria crítica contra a transfobia, pois toma como ponto de partida analítico não as estruturais sociais passíveis de crítica, mas posturas individuais que seriam passíveis de reprovação moral.

“Conveniência” é um conceito utilizado na maior parte das vezes num discurso que demanda análise crítica. Não nos diferencia muito da ideia radfem que uma pessoa trans (as de verdade sim neste caso) só transiciona em virtude de uma “conveniência” com as normas de gênero, porque supostamente seria “conveniente” para a matriz heterossexual aceitar de alguma forma a possibilidade de existências de pessoas trans — por mais malabarismos doidos que esse discurso tenha que lançar mão.

O fato de pessoas se verem constrangidas para ficarem dentro do armário não é argumento para dizer que certas pessoas podem obter privilégio a nível individual pelo fato de manterem-se no armário, e sim argumento para denunciar o mecanismo social da transfobia. Isso não implica desconsiderar que tais pessoas de fato não estejam expostas às mesmas violências que aquelas que são lidas a partir de uma marca que as identifica como abjetas (a depender, sempre, dos contextos, vale lembrar). Isso seria simplesmente reconhecer fatos pontuais. A questão é: não importa pra teoria se fulano ou ciclano deixa de estar exposto a transfobia num contexto x e y em virtude de não ser lido como trans. Isso não deve importar teoricamente. Importa para teoria o conceito que fazemos acerca de subjetividade e funcionamento da norma social.

Por isso falta compreender a violência do próprio armário, da sua lógica subjacente, da normalidade pressuposta na noção de que é “conveniente” estar no armário, de que nossas vidas não prestam para serem vividas e não tem a menor consideração.

Aliás, o que não fazemos da vida senão encontrarmos algum tipo de posição “conveniente”, diante das mais diversas situações de precariedade e vulnerabilidade? Dadas as diversas situações de precariedade sociais concretas pelas quais nos vemos existencialmente vulneráveis e que assinalam, portanto, especificidades que precisamos descrever por uma teoria feminista, todos nós nos vemos numa eterna redução de danos. Aliás, é precisamente quando me vejo numa situação de agravo de vulnerabilidade é que me encontro mais necessitada a me acomodar em algum posição de conveniência. Isso é demérito de algum grupo de pessoas mais do que de outros? Poderíamos determinar isso? Apontar no outro a posição de conveniência pode nos eximir facilmente da análise do nosso próprio lugar de conveniência.

E quando o apontamento da posição de “conveniência” no outro for acompanhado do desejo de demarcar no outro uma suposta “fraqueza” a nível inclusive moral? É isso mesmo que queremos?

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