Como os jovens trans e seus pais decidem iniciar a transição médica

O processo pelo qual os adolescentes trans procuram e acessam tratamento médico para a transição, incluindo bloqueadores de puberdade e/ou hormônios, é um dos assuntos mais amplamente incompreendidos na imaginação pública. O início do tratamento é frequentemente descrito como algo caprichoso, uma decisão tomada precipitadamente por jovens que podem simplesmente estar passando por uma “fase”, com pouca ou nenhuma consideração profunda de seu significado e impacto; seus pais são vistos embarcando nisto em função da coerção de ameaças de suicídio, ou então envolvidos eles mesmos em uma suposta “moda”; os clínicos que apoiam os jovens trans são, por sua vez, difamados como facilitadores imprudentes que supostamente permitem acesso imediato a esses tratamentos com base em meros caprichos dos adolescentes. Essa caricatura bizarra é a imagem da transição adolescente mais comumente promovida nos meios de comunicação alarmistas e sensacionalistas hoje.

Não deveria surpreender que a realidade da juventude trans e de suas famílias não se pareça com isso. Em um estudo recente de 17 adolescentes transmasculinos de 14 a 20 anos (nenhum havia acessado anteriormente bloqueadores da puberdade), juntamente com 13 de seus pais, os pesquisadores realizaram entrevistas sobre suas experiências no processo de considerar a opção da TRH (terapia de reposição hormonal) e iniciar o tratamento (Daley et al., 2019). Esse processo acaba sendo muito mais complexo e prolongado do que as imagens predominantes da mídia podem sugerir.

As entrevistas mostraram que o progresso dos adolescentes trans na busca de cuidados de afirmação de gênero começou com a auto identificação trans e o ato de se assumirem para os seus pais — no entanto, “nos casos em que os pais estavam menos familiarizados com a identidade de gênero ou menos favoráveis à identidade de seus filhos, o tempo até procurar atendimento foi geralmente prolongado por meses ou anos”. Esses adolescentes já estavam cientes da possibilidade de receber TRH (terapia de reposição hormonal), enquanto os pais geralmente exibiam relutância:

O processo típico descrito pelos adolescentes e pelos pais incluía a hesitação dos pais sobre a THAG (terapia hormonal de afirmação de gênero) e a defesa do adolescente a favor do início do tratamento. Com o passar do tempo, os pais se tornaram mais informados sobre a identidade de gênero e a terapia hormonal. Isso geralmente levou a uma parceria na qual os pais e o adolescente compartilharam as informações que sabiam sobre a THAG e, em seguida, chegaram a uma decisão final de iniciar o tratamento. Embora o compartilhamento de informações fosse considerado importante, raramente a decisão final dependia de um fato ou ponto de virada específicos, mas sim o aumento do conforto dos pais ao longo do tempo.

Notavelmente, a maioria desses adolescentes aceitou os pais como parte desse processo de tomada de decisão, ao invés de entrar em conflito com eles:

De maneira semelhante, embora alguns adolescentes tenham relatado que prefeririam uma proporção maior de controle decisional, todos, exceto dois, continuaram desejando que um pai ou uma mãe tivesse um papel na decisão. Os pais participantes geralmente ficaram satisfeitos com o seu papel na decisão e nos papéis dos outros.

Os adolescentes também descreveram um processo de “busca de informações” depois de aprender sobre a opção pela TRH, usando “blogs, vídeos on-line e fóruns de discussão para aprender sobre as experiências dos indivíduos”, além de obter informações de “contatos pessoais, familiares, colegas de classe ou membros da comunidade com experiência com a THAG” e da própria clínica de gênero. (Vale ressaltar que este estudo não retrata a busca de informações sobre a transição como um ato inerentemente sinistro ou um vetor de “contágio”, diferente de um outro notório artigo.)

O padrão de tomada de decisão mais evidente neste estudo é o progresso lento e constante, mas com diferenças entre as famílias relacionadas ao tempo que leva para progredir no caminho da decisão.

Em outras palavras: não é o que você vai ler nos jornais.

Transfeminista e analista de discurso, pesquisa o campo de cuidado com a saúde e direitos coletivos para a população trans.