Não, não há nada homofóbico na afirmação de gênero

Foto de Cecilie Johnsen no Unsplash.

Do que se trata?
Apesar — ou talvez em função de — do consenso clínico ter se solidificado rapidamente em torno da afirmação de gênero como a melhor abordagem para o cuidado de jovens trans, alguns comentaristas começaram a afirmar que o cuidado afirmativo de gênero é sustentado pela homofobia e talvez até seja equivalente à terapia de conversão gay. Este artigo baseia-se em dados científicos e na história da terapia de conversão para mostrar o quão equivocadas são essas acusações. Uma grande maioria dos jovens trans é queer após a transição. A transfobia — social, parental ou internalizada — é mais prevalente e intensa que a homofobia. Também existem poucas evidências de que os jovens sejam propensos a falsas crenças sobre sua identidade de gênero. Nenhum desses fatos coincide com as acusações, que parecem infundadas após um exame mais detalhado. Muito pelo contrário, uma pesquisa inicial da história da terapia de conversão destaca como a oposição à afirmação de gênero, ao invés de sua promoção, é parte integrante da história da terapia de conversão. Se alguma coisa merecia esse rótulo é a oposição aos cuidados afirmativos de gênero.

(Versão completa do documento disponível em “Resources” à direita.)

Por que isso é importante?
Estamos enfrentando uma onda de argumentos novos e renovados sendo mobilizados em oposição aos cuidados de saúde com jovens trans. Esses argumentos visam ignorar a literatura científica existente, que favorece fortemente a afirmação de gênero, colocando um novo subgrupo de pessoas trans às quais a base de evidências não se aplicaria. O envolvimento desses argumentos em publicações científicas é essencial para impedir que profissionais bem-intencionados, mas não especializados, sejam enganados por essas alegações. Este artigo procura minar um desses argumentos, que está intimamente ligado ao pseudo-diagnóstico infundado de disforia de gênero de início rápido, sobre o qual escrevi com frequência. O pseudo-diagnóstico postula um novo subgrupo de jovens vulneráveis que acreditariam falsamente que são trans como solução para seus problemas, devido ao contágio social. Nos últimos anos, o conceito tornou-se um dos principais instrumentos retóricos dos movimentos de assistência anti-trans.

Perspectivas

Florence Ashley
Universidade McGill

Combater o transantagonismo em um contexto formal é um esforço desafiador e frustrante. Isso é duplamente verdadeiro no contexto de revisão por pares, em que você costuma responder a revisores menos entusiasmados com o tratamento trans-afirmativo. Essas interações são uma oportunidade para fortalecer ainda mais os argumentos apresentados, especialmente quando endossados por editores apoiadores, mas não são menos exigentes em termos emocionais. Para grupos marginalizados, a pesquisa acadêmica não é apenas o desafio de pensar e escrever. É também o desafio adicional de cuidar e preservar a nossa saúde emocional — geralmente o maior desafio. Apesar das dificuldades que surgiram ao escrever e publicar este artigo, estou entusiasmada ao ver meus pontos de vista virem à tona e contribuir para o fortalecimento adicional dos cuidados afirmativos de gênero.

Florence Ashley contribuiu para esta página.

Leia também: “Porque o mito da “transição juvenil como terapia de conversão anti-gay” não faz sentido” de Zinnia Jones.

Transfeminista e analista de discurso, pesquisa o campo de cuidado com a saúde e direitos coletivos para a população trans.

Transfeminista e analista de discurso, pesquisa o campo de cuidado com a saúde e direitos coletivos para a população trans.