O apelo à moderação como falácia cisnormativa na grande mídia e a extrema-direita

Entenda porque a ingenuidade ideológica de liberais centristas os impedem de enxergar a transfobia como uma via de radicalização da extrema-direita

Beatriz Pagliarini Bagagli
24 min readOct 10, 2022

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O “apelo à moderação” é referenciado como um tipo de falácia (falácia do falso meio-termo). Ele consiste na expectativa equivocada de supor que uma posição intermediária entre dois extremos seria necessariamente superior, correta ou a melhor forma de solucionar uma questão ou propor uma solução. Neste texto, argumento a respeito dos motivos que levam tantos jornalistas liberais a incorrem nesta falácia quando eles enquadram a população transgênera no interior de um pretenso “debate” entre “dois lados” no espaço da grande mídia (especialmente sobre a saúde da juventude trans) — e porque isto acaba por cegá-los a respeito dos mecanismos por meio dos quais a transfobia e o pânico midiático anti-trans funcionam como uma via rápida de radicalização da extrema-direita.

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A falácia da moderação está intimamente relacionada ao viés midiático do falso equilíbrio. A crença de que toda questão possa ser enquadrada no interior de uma disputa entre pontos de vistas opostos pode gerar distorções, dando visibilidade ou importância desproporcionais para informações ou argumentos irrelevantes ou já refutados. Este viés tende a conferir, portanto, mais credibilidade ou atenção a um argumento ou posicionamento do que de fato eles merecem. No campo do jornalismo científico, a Wikipédia elenca diversos exemplos que ilustram o estrago deste viés na opinião pública: as causas das mudanças climáticas, os efeitos do tabaco e das vacinas na saúde e a noção de “design inteligente” sendo “discutidos” no interior de uma disputa entre dois pontos de vista.

A expectativa de que uma posição intermediária esteja a princípio “mais correta” que as demais posições (supostamente extremas) é um vício particularmente cometido precisamente por aqueles que se orgulham ingenuamente de serem centristas democráticos. Um dos perfis proeminentes de centristas é precisamente o de um jornalista liberal (no sentido estadunidense) que teve acesso a bons recursos educacionais e mesmo assim se “surpreendeu” com a eleição de figuras como Trump e Bolsonaro (a Globo atualmente me parece ter incorporado essa posição, por exemplo). O campo jornalístico talvez seja particularmente suscetível à falácia da moderação e ao falso equilíbrio em função de um histórico apego a uma noção de “imparcialidade” na defesa de uma posição pretensamente “neutra” e “objetiva” (conferir, neste sentido, a discussão da Mesa-Redonda II: Discurso, Mídia e Política no VI SEDISC).

Para esta posição, a extrema-direita neofascista simplesmente não faria sentido a princípio; o centrista frequentemente pode se encontrar, portanto, na posição de buscar compreender, mesmo com preocupação, apenas a posteriori a ascensão da extrema-direita, isto é, quando de fato ela já ganhou terreno significativo ou algo muito pior já tenha de fato acontecido.

O centrista é até capaz de compreender que uma posição “intermediária” entre a barbárie e a não barbárie é falaciosa pois ela acabaria por culminar no extremismo de direita que ele mesmo, em tese, condena. Por outro lado, a percepção do centrista em relação à extrema-direita pode ser descrita como uma forma de cegueira ideológica, tendo em vista a imagem que o centrista faz de si mesmo como o “verdadeiro”, e às vezes, o único; crítico da extrema-direita, preferindo culpar, como um mecanismo de defesa, o “outro extremo” (a esquerda). Ao fazer tal projeção, ele tende a ser incapaz de perceber a própria responsabilidade no avanço da extrema-direita.

Esta incapacidade se observa sobretudo na dificuldade ou falha de reconhecimento dos meandros das posições (aspectos sutis de linguagem, implícitos, subentendidos, pressupostos, ironias, ambiguidades, dog-whistles, “cultura interna”, ligações interdiscursivas “subterrâneas”, estratégias de camuflagem, etc.); inviabilizando, com isso, a denúncia em tempo hábil das estratégias que a extrema-direita utiliza para normalizar suas ideias na sociedade. Isto os torna particularmente suscetíveis, portanto, de caírem nas armadilhas que a extrema-direita utiliza para justamente disfarçar as suas posições como pretensamente moderadas e ganhar a opinião pública (o que acaba afetando a própria posição do centro, já que o espectro político de esquerda-direita ele mesmo se reconfigura a partir do parâmetro da radicalização da extrema-direita).

Isabel Brandão e Contrapoints já retrataram em diversos vídeos de forma bem humorada a típica “ingenuidade” desta posição centrista:

Aqui na verdade temos duas opções: ou o centrista é ingênuo por não entender as estratégias utilizadas pela extrema-direita para convencê-lo de que as suas próprias posições são tão “moderadas” quanto as do extremista neofascista ou ele está mesmo trabalhando conjuntamente com neofascistas de forma verdadeiramente maliciosa. Também há a possibilidade (mais provável) de uma mistura bastante variável entre estas duas opções (entre a ingenuidade constitutiva e a má-fé dissimulada).

Insufferably Intolerant Science Nerd.

No entanto, não importa muito distinguir com exatidão entre a ingenuidade e a malícia porque no final temos, de qualquer forma, um resultado parecido na prática: a maior circulação e aceitação de ideias de extrema-direita na sociedade como se fossem ideias “normais”, “moderadas” e “razoáveis”. É necessário avaliar o papel da grande mídia neste processo.

@ogredandy
@KatysCartoons

Conferir as orientação sobre “equilíbrio”, uso de pronomes e pessoas trans da Association of LGBTQ Journalists e o guia de estilo do Trans Journalists Association.

A saúde da juventude trans como um tema midiático

O enquadramento da saúde trans como um tema de debate no interior de “guerras culturais” favorece apenas o campo da radicalização anti-trans

O acesso à saúde para jovens trans a partir da adoção do modelo de afirmação de gênero tem sido extremamente “politizado” nos últimos anos, no sentido de que a “questão trans” passa a ser encarada, sobretudo por estes liberais centristas, como mais um “debate” público entre tantos outros — o que confere também um ar de postura democrática. Tal postura, no entanto, é apenas de fachada, pois o “debate trans”, tal como é enquadrado, favorece somente o campo da radicalização anti-trans com contornos progressivamente neofascistas e a propagação cada vez mais massiva de desinformação.

Sucessivas ameaças de bombas contra hospitais infantis nos EUA e de violência cada vez mais generalizada contra profissionais de saúde que atendem pessoas trans, especialmente crianças e adolescentes, são frutos diretos da propagação do discurso anti-trans nas redes sociais de extrema-direita. A circulação de ódio nas redes, neste caso, foi previamente alimentada diretamente pela “discussão” midiática “moderada” sobre a saúde trans, ou melhor, pelo próprio enquadramento por meio do qual a nossa saúde se torna um tópico de debate no interior de uma guerra cultural.

Segundo uma carta assinada pela American Academy of Pediatrics, a American Medical Association e a Children’s Hospital Association, “os ataques estão enraizados em uma campanha intencional de desinformação, onde alguns poucos usuários com alto engajamento nas mídias sociais compartilham informações falsas e enganosas direcionadas a médicos e hospitais, resultando em uma rápida escalada de ameaças, assédio e interrupção do atendimento em várias jurisdições”.

Transformar a saúde de jovens trans em um tema de debate já nos direciona para um vício de “dois-ladismos” (em inglês “both-sidesing”), extremamente recorrente na mídia liberal de língua inglesa: temos um “lado” que defende que jovens devem acessar recursos de afirmação de gênero e “outro lado” que não, qual vai “vencer” o debate? Vamos expor os argumentos contrários em uma rinha e vamos ver quem convence mais ou tem mais consistência lógica no “livre mercado de ideias”.

A saúde de jovens trans ganha bastante manchetes, mas além deste assunto, existe um crescente número de publicações na grande mídia de língua inglesa (sobretudo EUA e Reino Unido) sobre diversas outras “questões trans” (como a facilitação para as pessoas trans da acessibilidade aos espaços, como os banheiros; e aos direitos, como retificação de documentos). Tais questões são levantadas por meio de um enquadramento falacioso segundo o qual os direitos trans poderiam afetar negativamente as pessoas cis.

Isto se observa nos achados do relatório da Independent Press Standards Association (IPSO), publicado em 2020, a respeito de três tópicos que tiveram um crescimento particularmente notável na mídia britânica na última década: 1) crianças trans; 2) auto-identificação para retificação de documentos e 3) segregação de espaços por gênero.

Estes tópicos suscitam as “discussões” de que crianças e jovens trans “não existem” (seriam apenas “criações” recentes da medicina ou meras “invenções” do movimento trans) ou de que as crianças e os jovens não deveriam ter o direito de fazer a transição social para alegadamente “protegê-los” de serem “mutilados” e se arrependerem futuramente; assim como o enquadramento da autodeclaração para retificação de documentos de mulheres trans como um “fator de risco” para crimes sexuais em espaços segregados por gênero, como banheiros e prisões. A hipersexualização (a ideia de que pessoas trans querem fundamentalmente “enganar” parceiros amorosos pelo simples fato de existirmos, por exemplo) e o erro intencional e sistemático na designação da identidade e dos nomes próprios de pessoas trans também são aspectos ainda recorrentes na mídia.

Conferir Dysphorum.

Vale lembrar, ainda segundo o relatório da IPSO, que houve um aumento de 400% na cobertura de questões trans entre 2014 e 2019 a partir de uma análise de corpus de 12,405 artigos publicados entre 2009 e 2019 no Reino Unido. Este aumento, infelizmente, reflete, sobretudo, o recrudescimento da guerra cultural sobre questões trans e a criação de pânico moral midiático. Conclusão semelhante é tecida por pesquisa da Mermaids.

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Katelyn Burns se pergunta: o que acontece se as pessoas trans perderem o “debate trans”? Nos questionar isso nos faz lembrar que para nós, pessoas trans, o “debate trans” nunca foi sobre um exercício intelectual de debate de ideias. A assim chamada “questão trans” remonta à própria memória discursiva antissemita sobre a “questão judaica” que culminou no holocausto— enquadramos a defesa de pontos de vistas na realidade extremistas no interior de um debate que se presume, a princípio, válido.

O vício liberal-centrista do “dois-ladismos” acaba funcionando como uma forma, mais ou menos direta, de legitimação de teorias da conspiração e de discursos extremistas transfóbicos (sejam neofascistas ou “gender-critical”). E por “legitimar discursos transfóbicos” deve-se entender aqui não a promoção explícita de ideias sabidamente e escancaradamente falsas ou neofascistas “loucas”, mas precisamente a inscrição progressiva, muitas vezes de forma camuflada ou dissimulada, do discurso transfóbico no mainstream liberal sem que grande parte do público possa ao menos perceber e entender o que está de fato acontecendo (seja porque simplesmente desconhecem a ramificação mais profunda e sutil de discursos extremistas anti-trans, sua contextualização e linguagem e as razões pelas quais discursos anti-trans carecem de evidências científicas; seja porque quem escreve é, ele mesmo, adepto de tais discursos anti-trans e ativamente traça estratégias para difundir ideias anti-trans para públicos cada vez maiores e atingir progressivamente o mainstream liberal, sob a roupagem aparentemente inocente do gesto de “apenas levantar questionamentos legítimos”).

Outro “erro” bastante (e “convenientemente”) cometido por jornalistas que tendem para a cisnormatividade é pescar algum estudo científico como forma de tentar corroborar a suposta necessidade de “preocupação” com o acesso de cuidados de afirmação de gênero — quando, na verdade, os próprios estudos citados frequentemente não corroboram a posição defendida. Como exemplo paradigmático, temos a distorção midiática ad nauseam do estudo sueco de Dhejne et al. (2011), que encontrou níveis mais altos de mortalidade (principalmente decorrente de suicídio) na população trans que realizou a cirurgia genital em comparação com a população em geral. O erro neste caso foi sugerir que as cirurgias causaram o aumento da mortalidade (conferir verdade #1), já que o estudo nem ao menos teve o objetivo de avaliar os efeitos deste procedimento, isto é, ele não comparou a saúde da população que realizou a cirurgia antes e depois deste procedimento, tampouco comparou a população trans que realizou a cirurgia de redesignação com a população trans que não recebeu a intervenção.

Autores anti-trans também mandam cartas de opinião para revistas acadêmicas e equivocadamente utilizam-se destas publicações para sugerir que elas seriam artigos normalmente publicados, revisados por pares. Em função do grande público e mesmo alguns jornalistas desconhecerem a diferença entre esses gêneros textuais e o funcionamento do método científico, o discurso de ativistas anti-trans acaba ganhando indevidamente legitimidade nos meios de comunicação.

Uma das estratégias anti-trans comuns para radicalização progressiva do debate e opinião pública é a rotulação de organizações, grupos ou instituições como “politicamente parciais” em função do seu apoio à população trans, tal como a Stonewall; ou mesmo ataques diretos contra a Mermaids, por exemplo; ambas organizações do Reino Unido. Imputação semelhante ocorre quando se tenta alegar equivocadamente que o modelo afirmativo seria tendencioso em razão de apoiar o direito dos jovens em expressar suas identidades e de acessarem recursos no âmbito do cuidado com a saúde (conferir o mito#1).

Ashley (2022) observa, neste sentido, como posicionamentos cisnormativos no cuidado com a saúde, especialmente expressos na defesa de terapias ditas de “exploração de gênero” para jovens trans e/ou de gênero diverso, se utilizam tacitamente da falácia da moderação para se enquadrarem retoricamente enquanto uma posição “neutra”, alegadamente no meio termo entre um polo da aceitação/afirmação e da rejeição/negação. Thurlow (2022) analisa que a preferência dos posicionamentos “gender-critical” atuais em se dizerem “pró-mulher” ao invés de explicitamente “anti-trans” e defenderem “direitos baseados no sexo” (“sex-based rights”) ao invés da negação dos direitos da população trans exemplifica “a política de dog-whistle em que as frases agem como uma mensagem codificada anti-trans para aqueles iniciados, enquanto parecem razoáveis para a população em geral”. Grupos anti-trans podem alegar que respeitam pessoas trans de forma genérica e/ou vaga como uma estratégia para parecerem moderados, mas irão inevitavelmente abandonar qualquer posicionamento realmente inclusivo na prática ao antagonizarem os direitos trans com os direitos de demais grupos.

As ideias de que as alterações corporais associadas à transição são mutilações, reforçam “estereótipos normativos” de gênero e uma nova forma de “cura gay” juvenil; de que mulheres trans lésbicas sejam homens ameaçadores com um fetiche sexual (conferir, por exemplo, a repercussão da matéria da BBCWe’re being pressured into sex by some trans women”, traduzida pela BBC Brasil) e de que o movimento trans seria, em função de tudo isso, normativo (e em algum sentido até mesmo reacionário e violento), também são frequentemente mobilizadas. Tratam-se de argumentos que surgiram organicamente em um movimento bastante nichado, o feminista radical trans-excludente (que remonta aos anos 1970 nos EUA, com a famigerada publicação The Transsexual Empire de Janice Raymond), sendo, no entanto, paulatinamente apropriados, nos últimos anos, por outros grupos anti-trans emergentes mais abrangentes de diversos países e, por isso, externos ao feminismo, muitas vezes, agora, sob um novo rótulo aglutinador anti-gênero: “gender-critical”; percebam que não há “feminismo” nem “radical” neste rótulo, e isso não se dá por acaso.

Na minha opinião, não se trata tanto de dizer que o movimento “gender-critical” não é “verdadeiramente” “feminismo radical” (aliás, poderíamos inclusive discutir se o “feminismo radical trans-excludente” é “feminismo de verdade”), mas sim observar como elementos de saber doutrinários se movimentam mais ou menos livremente ao longo do tempo, entre diferentes grupos ideológicos, com quais tipos de ajustes, enfoques, deslocamentos e contradições sob quais contextos específicos. Hines (2020) avalia que, embora o feminismo anti-trans represente apenas uma pequena parte do feminismo, ele também tem se tornado relativamente mais atuante nos últimos anos, sustentado pelo apoio de alguns perfis nas redes sociais com alto engajamento na mídia. É preciso ter tudo isso em mente se buscamos compreender as possíveis formas de como diferentes grupos e discursos anti-trans se relacionam (ou podem vir a se relacionar).

As pessoas podem se perguntar a respeito da relevância de observarmos com atenção o que se produz na mídia em língua inglesa, já que aparentemente não estamos vendo o mesmo fenômeno de crescimento de pânico anti-trans na mídia brasileira. O relatório da IPSO faz um balanço interessante a respeito da mudança na representação midiática das pessoas trans no Reino Unido e isso pode nos ajudar a compreendermos, talvez com antecipação, a nossa realidade: em um primeiro momento, dos anos 1980 até o começo dos 2000, a ideia de transgeneridade era naturalizada como uma anomalia desconhecida do grande público; em um segundo momento, tivemos avanços significativos na representação, em um movimento de “humanização” e abandono progressivo de visões estigmatizantes; e, atualmente, em um terceiro momento, vivemos uma época de reação contrária aos avanços dos direitos trans por meio do pânico moral “gender-critical” com contornos cada vez mais neofascistas (este aspecto segundo a minha avaliação).

Eu diria que nós aqui no Brasil estamos vivendo ainda este segundo momento de representação mais positiva na grande mídia. No entanto, levando em consideração o papel do pânico anti-trans para a extrema-direita neofascista em um contexto de acirramento das contradições do capitalismo, o cenário não é nada animador. Se continuarmos no caminho em que estamos, eu não me surpreenderia nenhum pouco se começássemos a importar cada vez mais este pânico midiático anti-trans (ou mesmo o suposto “moderado debate trans”) gringo para a nossa grande mídia de prestígio.

Por isso, vamos analisar um exemplo relativamente recente de como isso ocorre na prática: o artigo publicado no NYT de Emily Bazelon, “The Battle Over Gender Therapy”, e a sua newsletter “A Medical Fronier” de 15 de junho deste ano.

Bazelon afirma que teve acesso preliminar da cópia da versão atualizada do Standards of Care (SOC-8) da World Professional Association for Transgender Health (WPATH) — o que suscitou inclusive alguns questionamentos entre a comunidade trans sobre a natureza um tanto suspeita de um acesso privilegiado de jornalistas ao documento que ainda nem havia sido publicado oficialmente (vale a pena acrescentar, neste sentido, que um rascunho havia sido divulgado publicamente em dezembro de 2021 para comentários do público, e houveram contribuições e críticas extremamente importantes da comunidade trans). Para uma contextualização mais detalhada sobre o papel da WPATH na discussão sobre o artigo de Bazelon, recomendo o podcast Death Panel com Jules Gill-Peterson e Charlie Markbreiter.

A jornalista então divulga que os autores do capítulo sobre adolescência do SOC-8 teriam escrito sobre o suposto papel da “influência social” no aumento recente do número de jovens se identificando enquanto trans. Embora seja preciso esperar para observar como de fato isso vai ser formulado textualmente no documento oficial, trata-se, sem dúvida, de algo preocupante, pois a ideia de que o aumento do número de jovens se identificando como trans possa decorrer de algum tipo de “influência social” (ou mesmo de “contágio social”) é um tópico extremamente recorrente na produção de pânico anti-trans atual (além de sinalizar, portanto, que as contribuições valiosas da comunidade trans podem ter sido menosprezadas ou mesmo ignoradas para a formulação da versão final).

Um adendo aqui: a ideia de que a identificação enquanto LGBT possa decorrer de “contágio social”, mesmo carecendo de qualquer evidência empírica, pode ser facilmente utilizada como um argumento para medidas jurídicas anti-LGBT que visam supostamente “proteger” jovens de se “contaminarem” e “virarem” LGBT ou simplesmente o impedimento de crianças conviverem com pessoas abertamente LGBT, inclusive com seus próprios pares de gênero diverso (o que leva, portanto, ao ostracismo de crianças de gênero diverso em relação aos seus pares de mesma idade e a defesa de terapias de conversão de identidade de gênero para essas crianças e adolescentes).

Percebam o quanto falar em “influência social” é na verdade um eufemismo para “contágio social”? Isso pode muitas vezes passar despercebido por pessoas que não têm um maior contato com as implicações destes discursos e os seus respectivos interdiscursos.

Imagem de Kelley Winters, publicada no grupo do Facebook “International Transgender Health”.

A percepção enviesada que orienta a repetição constante por jornalistas que o acesso às alterações corporais está sendo oferecido de forma “rápida demais” nos mostra o quão eles de fato tendem a estar deslocados dos reais problemas e dos inúmeros obstáculos que as pessoas trans enfrentam concretamente para acessarem os recursos de afirmação de gênero.

Bazelon menciona o aumento do número de jovens transmasculinos como evidência de que “algo diferente” possa estar acontecendo — evocando aqui lateralmente, portanto, o alegado fenômeno da “disforia de gênero de início rápido por contágio social”. Isto, além do próprio fato de que mais jovens estão se assumindo trans atualmente, já foi extensivamente abordado (porque é algo que é repetido insistentemente em discursos anti-trans na mídia e nas redes sociais ou por aqueles que estão “preocupados” com a nossa mera existência, vista erroneamente como “epidêmica”): nada disso indica que algo anômalo esteja acontecendo ou que precisamos lançar mão de hipóteses adicionais para explicar o que estamos observando.

O artigo se fundamenta por meio do relato de familiares envolvidos no grupo Genspect, uma organização sabidamente anti-trans, responsável por parte considerável do ativismo cisnormativo atual no cuidado com a saúde para jovens trans, como bem já documentaram o TransSafety.Network e o Health Liberation Now! em diversas ocasiões. Trata-se de um grupo de radicalização de posicionamentos anti-trans que realizam protestos de rua com o objetivo de constranger e impedir que jovens consigam acessar recursos afirmativos em clínicas (qualquer semelhança com religiosos fundamentalistas cristãos tentando impedir uma menina de 10 anos de realizar um aborto não me parece coincidência); defendendo a proibição de cuidados de afirmação de gênero para pessoas menores de 25 anos e a aplicação de terapias de conversão de identidade de gênero. O uso de relatos de pais que rejeitam a identidade trans de seus filhos também foram escolhidos a dedo por Lisa Littman por meio das redes sociais para a construção do pseudo-diagnóstico de “disforia de gênero de início rápido”.

A autora diz que os profissionais estariam “preocupados” em como “responder” a esses “milhares de jovens que chegam nas portas de suas clínicas”, sugerindo, portanto, a existência de algum tipo de controvérsia sobre como cuidar deste pretenso subgrupo de jovens que seria, de alguma forma, distinto do grupo já descrito pela literatura médica consolidada. Este tipo de especulação sem nenhuma evidência empírica, na realidade, só funciona para abrir brechas para discursos anti-trans atuarem.

Tanto um número maior de jovens se assumindo trans quanto de transmasculinos, mais especificamente, podem ser explicados, respectivamente: 1) pela diminuição do estigma transfóbico nas sociedades atuais; 2) pelas estatísticas anteriormente utilizadas serem totalmente imprecisas a respeito da prevalência da transgeneridade na população (em grande parte pela estigmatização histórica da população trans que impede que dados confiáveis sejam obtidos). O próprio fato de que nem ao menos exista uma proporção “correta” ou “ideal” entre pessoas transmasculinas e transfemininas, para início de conversa, a partir da qual poderíamos estabelecer um parâmetro de suposta normalidade, nos impede de usar o aumento de jovens transmasculinos como evidência de que algo “diferente” ou “anômalo” esteja ocorrendo.

Só lançaríamos mão de hipóteses como a de “disforia de gênero de início rápido por contágio social” se partimos da premissa de que a transgeneridade (e a transmasculinidade entre os jovens, mais especificamente) é algo anômalo e que precisaria até mesmo ser melhor “controlada”. A ideia de que um grupo muito específico de jovens precisa ser “protegido” deste “contágio” não está alheia a outros pilares da extrema-direita, como a supremacia branca e o machismo.

De fato, um neonazista já mobilizou esta hipótese para lamentar como “úteros brancos estão sendo perdidos” — levando em consideração, neste caso, que jovens transmasculinos brancos que fizeram alterações corporais são projetados imaginariamente como mulheres brancas jovens que foram esterilizadas e, por isso, “mutiladas”. As recentes elucubrações de que jovens transmasculinos seriam particularmente “vítimas” da “disforia de gênero de início rápido” via “contágio social” revela, portanto, além de vieses cisnormativos, a reprodução da noção patriarcal de “inocência e vulnerabilidade da feminilidade” e o controle biopolítico dos corpos capazes de gerir (sobretudo, neste caso, dos corpos vistos a partir do “dever” de gerir, tendo em vista que estes jovens são presumidamente brancos de classe média e/ou média-alta).

A perspectiva do artigo vai na direção de defender uma avaliação psiquiátrica mais rigorosa para o acesso a procedimentos de alteração corporal associados à transição de gênero. A princípio, isso parece uma necessidade óbvia, afinal, é necessário evitar eventuais arrependimentos, e a única forma seria por meio de avaliações minuciosas. Será que é bem assim?

A concentração de poder desproporcional nas mãos dos profissionais de saúde na decisão sobre o acesso às alterações corporais acaba gerando uma dinâmica bastante prejudicial. Frente a critérios mais rigorosos para o acesso a recursos desejados, as pessoas trans inevitavelmente irão utilizar de estratégias à altura para conseguirem o que desejam, como a manipulação da própria narrativa para melhor se encaixar nas expectativas diagnósticas. Isso acaba alimentando uma relação de desconfiança entre usuário e profissional de saúde. Caso não consigam o acesso a tratamentos institucionais, irão lançar mão de estratégias perigosas e potencialmente mais prejudiciais como a automedicação ou os procedimentos clandestinos.

O número tanto de destransição (particularmente a destransição decorrente de arrependimento pela transição de gênero) como de arrependimento por alterações corporais de transição de gênero é extremamente baixo — e tem permanecido baixo a despeito do número cada vez maior de pessoas trans, incluindo as mais jovens, que têm conseguido acessar esses procedimentos nos últimos anos com uma maior facilidade, a partir da ampliação de serviços e recursos pautados em abordagens de afirmação de gênero. Logo, não se justifica qualquer tipo de recrudescimento nos critérios diagnósticos atuais para o acesso a esses cuidados — tendo em vista que isto irá dificultar, na prática, o acesso a recursos a pessoas que efetivamente iriam se beneficiar deles.

O’Connel (2022) observa que defensores dos direitos trans, especialistas médicos e outros jornalistas condenaram o artigo de Bazelon por retratar de forma imprecisa os cuidados de saúde como controversos; deturpar pesquisas científicas e citar ativistas anti-trans sem o contexto adequado. Ainda observa que, deliberadamente ou não, o artigo “ecoa o medo da direita sobre se crianças trans deveriam ter permissão para fazer a transição e até sugere que a sua existência pode ser perigosa para os outros jovens”.

Artigos como o de Bazelon podem ser utilizados como justificativa para medidas legislativas que visam proibir o acesso aos cuidados afirmativos para jovens ou mesmo criminalizá-los como um tipo de “abuso infantil”. De fato, isto aconteceu precisamente no Texas com o artigo em questão, em uma proposta para tirar a guarda dos filhos trans dos pais que apoiam a identidade de gênero de seus filhos. Uma caçada judicial às famílias se desenrolou no estado a partir de então.

Vale ressaltar que inúmeras pessoas trans, antes mesmo da publicação do artigo, já tinham explicado pacientemente para Bazelon todos os aspectos que analiso aqui — de forma com que parece improvável que ela possa alegar desconhecimento ou mera ingenuidade.

O artigo de Bazelon publicado em julho é apenas um exemplo de uma tendência mais ampla

Não é a primeira vez, e certamente não será a última, que o NYT dá espaço para este tipo de publicação. No aparente distante ano de 2015, Carlos Maza já escrevia como o NYT abordava questões a respeito das vivências de pessoas trans de forma problemática.

Poucos dias depois da publicação de Bazelon, o NYT vem novamente na mesma linha e publica um artigo, no dia 3 de julho, que é o mais puro suco do discurso “gender-critical” atual (repetidor dos exatos mesmos pontos de “discussão” do feminismo radical trans-excludente sobre pessoas trans, mesmo que, neste caso, com pouco ou nenhum retrogosto propriamente de “feminismo” que poderia ainda restar): The Far Right and Far Left Agree on One Thing: Women Don’t Count (“a extrema-direita e a extrema-esquerda concordam em uma coisa: as mulheres não contam”), de Pamela Paul.

Em setembro de 2022, novamente mais uma publicação sobre o “debate trans” no NYT, More Trans Teens Are Choosing ‘Top Surgery’. Michael Hobbes observa a cisnormatividade (mesmo que neste caso mitigada em relação aos outros artigos aqui citados) deste artigo a respeito da realização de mastectomias em homens trans e jovens transmasculinos: a despeito do fato de benefícios comprovados para esmagadora maioria das pessoas que a realizam, a matéria retrata, a partir de casos anedóticos, o acesso deste recurso por menores como se fosse algo digno de preocupação. Aspectos sutis de linguagem também contam (como a forma como a matéria descreve o número de pessoas que se arrependeram em estudos científicos por meio de quantificadores como “alguns”, por exemplo).

Em 2021, o NYT publicou uma resenha de Jesse Singal do livro de Helen Joyce TRANS: When Ideology Meets Reality, elogiando-a por “oferecer uma réplica inteligente e completa a uma ideia que varreu grande parte do mundo liberal aparentemente da noite para o dia”. Que ideia seria essa? Talvez a de que pessoas trans merecem ter suas identidades de gênero socialmente reconhecidas.

Joyce dialoga com teorias de conspiração que conjugam discursos anti-trans atuais (como o pseudo-diagnóstico de disforia de gênero de início rápido) com o velho antissemitismo: a crença ou sugestão de uma suposta “agenda global” tramada por bilionários judeus com o objetivo de destruir a civilização ocidental por meio das tecnologias relacionadas à transição de gênero.

Apoiando-se ou citando nomes como Jennifer Bilek, uma ecofascista anti-trans, e Keith Woods (que articulam estas teorias de conspiração); partimos inicialmente do NYT ou do The Economist, jornais típicos do liberalismo mainstream, e chegamos, de forma surpreendentemente rápida, ao neofascismo e à supremacia branca. E ainda com elogios.

Tudo isso à distância de literalmente alguns poucos cliques: podemos concluir como a transfobia é uma via extremamente rápida para a divulgação da extrema-direita para o público em geral que a princípio seria “apenas” liberal ou centrista.

Se a mídia liberal de centro se mostra tão permeável a discursos anti-trans extremistas, não precisaria dizer nada a respeito dos setores da mídia já tradicionalmente mais à direita. Podemos ir além: a transfobia já faz parte considerável da propaganda da extrema-direita, servindo como catalisadora da união no campo da direita, além da reação contrária aos ganhos do movimento trans.

A luta por direitos da população trans frequentemente é imaginada como uma ameaça direta aos valores familiares defendidos por grupos reacionários. O fomento do espectro de ameaça a valores considerados fundamentais faz parte, por sua vez, da própria política de guerra cultural da extrema-direita. A avaliação de Stanley (2018) ajuda a contextualizar a relevância da transfobia na organização da extrema-direita: “dada a importância da hierarquia de gênero para a ideologia fascista, o fato dos políticos terem tentado fomentar a histeria em massa sobre as mulheres trans [serem predadoras sexuais em potencial] não é surpreendente se esse esforço for entendido como uma manifestação de táticas políticas fascistas e um sinal de que a política fascista é ascendente”.

Conforme documentado por Christa Peterson, as novas articulações do discurso anti-trans estão influenciando cada vez mais o movimento “gender-critical” — e podemos dizer também, em via de mão dupla, que o discurso “gender-critical” (que surgiu, vale a pena lembrar, do setor “radical trans-excludente” do feminismo) também passa a ser mobilizado mais ou menos estrategicamente pela extrema-direita e, mais especificamente, pelo antissemitismo neofascista. Neste aspecto, Tudor (2021) avalia que “feministas transfóbicas não apenas copiam a linguagem da extrema-direita, mas também fazem parte do discurso da extrema-direita”. A ingenuidade típica do centrista-liberal o impede muitas vezes de perceber o potencial da transfobia na radicalização de um número cada vez maior de pessoas e grupos na direção da extrema-direita.

Quando interpelados a respeito dos impactos deste tipo de matéria na grande mídia sobre questões trans na aprovação de medidas legislativas “draconianas” (de extrema-direita, destinadas a barrar qualquer tipo de recurso de afirmação de gênero por meio da sua criminalização), jornalistas como Jesse Singal irão dizer que qualquer tipo de julgamento de responsabilização de centristas no atual processo de normalização de posicionamentos radicalmente anti-trans não passa de um “argumento ridículo”.

A justificativa para a desresponsabilização dos centristas é justamente, vejam só, o apelo à moderação.

“Não somos culpados por políticos de extrema-direita criarem leis anti-trans pois o que fizemos foi apenas levantar questões legítimas e defender avaliações mais minuciosas para o acesso à transição de gêneroé basicamente o que Singal diz em sua defesa.

Ao criticarmos o próprio enquadramento prévio da “questão trans” como uma “questão” passível de debate, seremos nós, as pessoas trans, prontamente acusadas reversamente de sermos as verdadeiras autoritárias e tendenciosas. Isto é, defender que a saúde da população nem ao menos deveria ser um “tema de debate” na mídia e opinião pública será facilmente interpretado como um gesto autoritário de censura à liberdade de pensamento ou discussão.

Frente ao exposto, o cenário parece bastante problemático e de difícil resolução. É preciso, de qualquer forma, que todas as pessoas aliadas ao movimento trans compreendam efetivamente as razões pelas quais o pânico anti-trans é gerado na mídia por meio de uma “discussão” enviesada pela cisnormatividade e porque isto inevitavelmente irá beneficiar o campo da extrema-direita. Só assim não estarão predispostos a disseminar desinformação e mitos sobre a saúde da população trans, especialmente a mais jovem.

É necessário explicar efetivamente porque a luta trans pelo acesso a recursos de afirmação de gênero não é antagônica ao movimento feminista e aos interesses de pessoas que destransicionaram ou mesmo se arrependeram. Para isso, recomendo aqui a leitura dos seguintes textos: O que é destransição de gênero? Entenda os aspectos mais importantes; A transição social não é uma intervenção médica para crianças e adolescentes — ela é sobre a nossa vida.

Por fim, para exemplificar que o jornalismo também é um espaço possível de resistência às narrativas anti-trans, trago a excelente e interessante repercussão do programa de Jon Stewart. O vídeo abaixo já conta com mais de 13 milhões de visualizações e 230 mil likes no Twitter:

Stewart questionou a procuradora-geral do Arkansas, Leslie Rutledge, porque este estado baniu cuidados de afirmação de gênero para menores. A medida tomada pelo estado, além de autoritária, é inconstitucional. Ao invés de simplesmente legitimar as alegações de grupos anti-trans como “mais um ponto de vista”, o jornalista exigiu, como deve ser feito, as evidências que pudessem corroborar esse tipo de medida, quais médicos ou organizações defenderiam a proibição, tendo em vista que as organizações médicas institucionalmente reconhecidas de fato aprovam estes cuidados.

Stewart escancarou a contradição de Rutledge ao comparar os cuidados de afirmação de gênero com demais tratamentos médicos — se não esperamos que o estado proíba o oferecimento de cuidados médicos como a quimioterapia para crianças com câncer, por que acham que podem fazer o contrário no caso da disforia de gênero? Além disto, mostrou que estes posicionamentos legislativos anti-trans no cuidado com a saúde são realizados a partir de “evidências” de baixíssima qualidade — ao ser questionada a respeito de quais organizações e médicos foram ouvidos para sustentar a proibição no Arkansas, a procuradora-geral se limitou a dizer, de forma absolutamente vaga, a respeito da existência desses supostos profissionais; no entanto, quais médicos e quais organizações seriam exatamente ela simplesmente foi incapaz de explicitar.

Pode parecer simples, mas exigir o mínimo de ceticismo neste caso acaba por revelar, por contraste, o nível de enviesamento e falso equilíbrio de boa parte do jornalismo recente em língua inglesa a respeito desta questão. Isto não passou despercebido por muitas pessoas, inclusive notando que Stwart recebeu merecida repercussão neste caso enquanto muitas outras pessoas trans não são igualmente ouvidas ao fazerem exatamente o mesmo.

O confronto de Jon Stewart com a procuradora-geral já foi elogiado como “uma aula de mestre na arte de uma entrevista de produção de notícias”, enquanto outras pessoas comentam, por outro lado, que a performance de Stewart só parece excepcional em um contexto de um nivelamento de qualidade já muito baixo do jornalismo mainstream, no qual as vozes de grupos minoritários muitas vezes não ganham a mesma visibilidade.

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Beatriz Pagliarini Bagagli

Transfeminista e analista de discurso, pesquisa o campo de cuidado com a saúde e direitos coletivos para a população trans.