O ENEM de 2018, o pajubá e a “doutrinação ideológica” na educação

Um dos sentidos mais trágicos que a palavra “doutrinação” está tendo nas discussões atuais sobre educação é a respeito daquilo que vêm sendo considerado como “conteúdo” doutrinário, digamos assim. A princípio, doutrinação nos levaria a descrever um processo de convencimento que pretenderia levar a adesão a uma perspectiva sobre determinado aspecto que expressaria uma ideologia específica.

Mas, infelizmente, o que doutrinação está significando não é a estratégia de convencimento a adesão a determinadas perspectivas, mas a mera abordagem de certos temas que vão se tornando tabus e, por eles mesmos, doutrinários. Então o silenciamento sobre certos assuntos nas escolas vai sendo literalmente naturalizado como o a situação pretensamente neutra de ausência de doutrinação. Doutrinação não é vista mais como o processo que levaria alguém a acreditar sobre algo, mas o próprio fato de se abordar algum conteúdo, mesmo que a princípio sem nenhum tipo de direcionamento de opinião. Vemos isso sobretudo nas questões de gênero, sobre o ENEM, no dia a dia das escolas e nos comentários em redes sociais de pessoas que muitas vezes nem pisaram os pés nas escolas há muito tempo e alegam existir uma “doutrinação” sistemática da esquerda em todas as escolas brasileiras.

Doutrinário torna-se a questão que aborda o pajubá, por exemplo. Falar sobre comunismo ou marxismo também. Ora, doutrinário seria se estivéssemos direcionando alguma perspectiva em específico a respeito do pajubá ou do marxismo. Mas falar de pajubá, questões LGBT e de história, de forma mais ampla, tem sido interpretado como um ato em si de doutrinação e isso é extremamente perigoso, pois irá naturalizar a perspectiva autoritária que determinará que a condição de “neutralidade” para a abordagem desses assuntos é a própria censura — ou seja, precisamente a não-abordagem, o apagamento/silenciamento destas questões.

BBC Brasil.

Isso sim é doutrinação e escola COM partido. O projeto “escola sem partido” defende precisamente esse tipo de censura prévia a conteúdos que são considerados intrinsecamente de “esquerda” e não à toa tem sido chamado de LEI DA MORDAÇA. Ao agir desta forma, cai por terra a alegação deste movimento pilantra de que o projeto deles preveria a pluralidade de perspectivas a serem ensinadas sem doutrinação ou direcionamento.

Ora, se o mesmo projeto “escola sem partido” explicitamente diz que é preciso abolir a “ideologia de gênero” e até mesmo o (pasmem!) termo gênero, como vamos abordar essa questão de forma não-doutrinária? Como se pode alegar pluralidade ideológica se estão a ponto de proibir uma palavra em sala de aula!? Se o problema é a respeito do direcionamento ideológico não deveriam propor censura prévia a nenhum tipo de conteúdo, incluindo o que eles alegam ser “ideologia de gênero”.

Todo mundo sabe o peso simbólico que a prova do ENEM tem ganhado sobre as discussões sociais e políticas contemporâneas. Quando a prova aborda uma questão sobre gênero é talvez duplamente simbólico, tendo em vista a perseguição da discussão sobre gênero e feminista nos âmbitos da educação que sofremos nos últimos anos. Todo mundo está falando sobre a questão desse ano do pajubá, “o dialeto secreto das travestis”.

Para além da “comemoração” a respeito da existência da questão — que eu acho sim necessária e válida — que tal a gente pensar sobre o que significa na prática esse dialeto pras travestis? Quando essa linguagem paulatinamente vai deixando o seu status secreto através de “objetos formais de ensino”, como um dicionário… já pensaram no que isso pode acarretar pra além do puro conhecimento pelo conhecimento ou da curiosidade desse tal dialeto exótico?

Travestis usam palavras com significados que não podem ser reconhecidos pela maioria da população cisgênera por motivos não tão festivos — elas precisam lidar com violência policial, se verem livres das mais diversas confusões e enrascadas e o uso desse dialeto é uma possível estratégia.

Questionar um possível viés exploratório e colonizatório de iniciativas como o dicionário Aurélia feito pelo jornalista Angelo Vip e Fred Libi não deve ser entendido como um mero ataque a esse dicionário — mas compreender que esse tipo de instrumento pode não estar sendo efetivamente utilizado pela população a qual eles “extraem” (quase literalmente) a sua fonte de dados — desconsiderando assim as próprias perspectivas e interesses concretos das usuárias e usuários efetivos desse dialeto. Afinal, se há a ampla divulgação dos significados das palavras do pajubá a possível estratégia de sobrevivência de algumas travestis pode, em parte, ficar comprometida. Não sei se alguém já parou pra pensar nisso.

Vi dois prints dessa questão e curiosamente ambas marcavam como correta a alternativa C. A questão perguntava “da perspectiva do usuário, o pajubá ganha status de dialeto, caracterizando-se como elemento de patrimônio linguístico, especialmente por:”

Alternativa C: “ser consolidado por objetos formais de registro”
Alternativa B: “ter palavras diferentes de uma linguagem secreta”

Me parece sintomático ver dois prints circulando a resposta C, sendo que a resposta correta parece ser a B — pelo menos na minha avaliação. Sintomático porque justamente a formalização por meio de objetos de registro — o dicionário — neste caso levantar a problematização que teci acima. Precisamente, o pajubá “ganha status de dialeto”, “pela perspectiva do usuário”, por ser uma linguagem secreta. Na medida em que ela passa por formalização e divulgação, ela pode ter seu uso descaracterizado.

Porém, temos a impressão de que se “um objeto formal de registro” consolidar o dialeto das travestis, isto irá garantir, frente ao usuário, uma espécie de legitimidade, um reconhecimento de que se trata de fato um dialeto. Neste sentido, a questão é profundamente capciosa — uma bela “pegadinha”. É justamente a perspectiva das usuárias travestis do dialeto que acaba sendo esquecida ou marginalizada neste processo.

Para além destas questões que levantei acima, vemos pessoas simplesmente afirmando inverdades para tentar desqualificar esta questão e sua relevância. Dizem que não seria relevante pra prova pois ninguém seria obrigado a saber pajubá. De fato, ninguém é obrigado a saber pajubá pra poder interpretar a questão e ter condições de acertar. Pra acertar a questão a pessoa tem que se dispor a ler um texto de 4 parágrafos e interpretar, ao invés de simplesmente se indispor de antemão, e a partir do que foi exposto, resolver a questão. A rigor, o leitor não precisa de nenhum conhecimento prévio a respeito de especificidades do pajubá, ela necessita apenas leitura atenta. E bem, saber ler e interpretar um texto, saber decodificar informações básicas, é algo passível de ser cobrado normalmente no ENEM.

Então simplesmente não é verdadeiro que o conteúdo cobrado por essa questão seria inadequado ou irrelevante. A questão mede sim conhecimento, ao contrário do que alega o presidente eleito: conhecimento de leitura e interpretação acerca de um fato linguístico. As culturas minoritárias fazem parte da cultura do Brasil, ao contrário do que também alega o presidente.

O presidente curiosamente ainda afirma que a questão só se tornaria relevante caso se deseje “obrigar a garotada se interessar mais por esse assunto”. Bolsonaro novamente se equivoca profundamente.

Ao contrário, o ENEM precisa selecionar pessoas que sejam capazes de lerem um texto de 4 parágrafos independente se têm interesse ou não no assunto abordado por ele. A função de um texto como este não é produzir um suposto “interesse” no leitor. Se um candidato não for capaz de um ler um texto simples que não é do seu interesse ele simplesmente não está apto a pleitear uma vaga em uma universidade (bem, não preciso dizer que será muitas vezes necessário na vida universitária a disposição em ler textos bem maiores de 4 parágrafos que muitas vezes não nos despertam menor interesse), além de mostrar déficits de capacidades básicas de leitura que deveriam terem sidos sanados com o ensino médio.

Outro suposto e falso critério utilizado seria a “utilidade”. Não seria útil ler sobre pajubá e pensar sobre ele. Ora, todos sabemos que muitos outros conteúdos escolares teriam problema em se enquadrar neste critério de “utilidade”. Podemos ficar divagando sobre a utilidade de filosofia para os não-filósofos, ou ainda sobre saber biologia para os não-biólogos, saber fórmula de Bhaskara se sou um “empreendedor”, etc. O critério de estrita utilidade simplesmente não funciona para determinar a relevância dos conhecimentos que são abordados na escola, e uma escola que se reduzir a pura utilidade simplesmente deixará de ser o que entendemos ser uma escola e se tornará algo bem diferente dela.

Mortadelismo Coxinha Anarcocapitalista

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