O problema do radfem com pessoas trans

Como mulheres e homens trans suscitam medo para o separatismo lésbico

Beatriz Pagliarini Bagagli
5 min readAug 26, 2020
Imagem: Amy Ashenden/Pinknews.

Se você quer entender o que assombra o feminismo radical trans-excludente você precisa entender o que está no cerne da ideia de separatismo lésbico, os medos que sustentam a ideia de que seja preciso defender um separatismo, o medo que as lésbicas que se identificam como feministas radicais (ou simplesmente como “lésbicas radicais”) têm do que elas julgam ser o desaparecimento ou mutilação das lésbicas. Este medo é projetado diretamente sobre as pessoas trans, configurando as suas próprias inseguranças sobre as pessoas trans, transformando as identidades transgêneras, sejam de mulheres trans e homens trans, em algo profundamente ameaçador.

Neste paradigma, mulheres trans lésbicas são vistas como “homens infiltrados” que as enganam, fazendo-as “suscetíveis” a estabelecerem um relacionamento heterossexual aparentemente contra as suas vontades. Vale ressaltar que esses receios funcionam imaginariamente, isto é, não estamos falando empiricamente de mulheres trans lésbicas que efetivamente coagem “lésbicas rádicais” a se relacionarem com elas. É sobre a construção de um imaginário: psiquicamente é como se mulheres trans estuprassem as lésbicas cisgêneras pelo simples fato de existirem, como se isso fosse suficiente para motivar a percepção nas “lésbicas radicais” de que elas estariam sendo coagidas, mesmo subliminarmente, a se relacionarem com mulheres trans, ativando inclusive o medo de estupro corretivo e conversão de sexualidade. Em outras palavras, é como se o reconhecimento de que mulheres trans sejam mulheres permitisse a conclusão de que “lésbicas radicais” estejam sendo coagidas a se relacionarem com mulheres trans — mesmo que isso seja logicamente falso. Como compreender o fato de um medo que deveria ser irracional insitir em produzir tantos efeitos no movimento LGBT? Tudo isso parece muito estranho, mas é algo que está inscrito na memória do movimento “lésbico radical” desde, pelo menos, a publicação em 1979 de Janice Raymond de The Transsexual Empire.

Homens trans também são vistos como ameaçadores, mesmo que por outras vias. Eles são vistos como responsáveis pelo “desaparecimento/apagamento das lésbicas”, por supostamente “deixarem” a comunidade lésbica pela transição de gênero. Vale ressaltar que o medo em relação a homens trans não é apenas um mero medo externo, resultado da “perda numérica” de integrantes da comunidade lésbica, é também, como no caso com as mulheres trans, um medo interno muito profundo que só pode ser compreendido através de projeções imaginárias internalizadas psiquicamente, porque muitas “lésbicas radicais” fazem hipóteses muito sérias sobre como a transição de gênero constituiria para elas uma pressão social para fugirem da opressão sexista, e caso elas transicionassem elas certamente se arrependeriam, pois estariam sendo “convencidas” a se mutilarem. Elas projetam essas experiências como se fossem universais, isto é, como se todo homem trans fosse necessariamente mais uma “lésbica radical” iludida a se automutilar pelo patriarcado. Para essa perspectiva, todos os homens trans virtualmente estão a espera de se arrependerem e “voltarem” ao seu estado natural, a “lesbiandade radical”.

Percebam que em ambos os casos, lésbicas que se identificam como feministas radicais têm medo de serem enganadas, e o aspecto visceral desse medo e perigo só faz sentido porque as identidades trans as enganariam em aspectos muito profundos a respeito de suas próprias identidades e desejos.

O medo de “lésbicas radicais” não consiste meramente no medo de homens trans; elas tem medo de se reconhecerem como homens trans, pois isso implicaria no fato delas se autoenganarem em relação a suas próprias identidades de gênero. De forma semelhante, lésbicas radicais não tem medo da mera presença de mulheres trans em espaços feministas, elas tem medo do desejo ou da atração que podem sentir por mulheres trans, pois isso implicaria no fato de também serem “enganadas”. Percebem o quanto essas inseguranças dizem respeito muito mais a forma como “lésbicas radicais” se relacionam com as ideias que elas mesmas fazem sobre homens e mulheres trans do que diretamente sobre os homens e mulheres trans?

Por isso precisamos entender os efeitos que essa construção imaginária a respeito de homens e mulheres trans possuem no meio LGBT. Não é algo negligenciável. Não é porque essas representações são imaginárias que elas deixam de ter implicações práticas e concretas na vida das pessoas LGBT e na forma como reivindicamos nossos direitos e compreendemos nossas existências.

Elliot e Lyons (2017) fazem uma leitura psicanalítica que na minha opinião vai no cerne dessas questões, chamado Transphobia as Symptom: Fear of the “Unwoman” . Vou citar um trechinho em que falo desse artigo na minha dissertação (p. 60–61):

Elliot e Lyons (2017, p. 360) argumentam que a transfobia no discurso feminista radical trans-excludente pode ser compreendida como um sintoma que resulta da idealização de uma comunidade lésbica feminista harmoniosa e unificada. A percepção de que a harmonia e unidade da comunidade é falha dá vazão não ao reconhecimento de que a falha seja inerente à própria idealização, mas, ao contrário, ao medo e o ódio ao outro, visto como responsável pela falha e portanto um inimigo que deve ser combatido. Esta percepção aprisiona o sujeito em uma obsessão paranóica contra o seu inimigo, visto como um espectro fantasmático de objetos capazes de instigar tanto a perseguição quanto o medo e expressa uma atitude de teor conspiratório.

O não reconhecimento da mulher trans como mulher e a sua consequente exclusão como outra estranha (the unwoman as uncanny other) fornece a coerência imaginária desta comunidade idealizada contra os perigos externos (ibid., p. 360). Imagina-se que a unwoman tenha a intenção de trair e prejudicar as mulheres e atrapalhar a possibilidade de uma comunidade de iguais (ibid., p. 367). Quando mulheres trans assumem a função de unwoman no discurso feminista trans-excludente de Raymond, lhes são atribuídas a intenção de estuprar e de se apropriar do corpo feminino. A atribuição da identidade lésbica às mulheres trans neste contexto acirra ainda mais o medo de estupro e apropriação corporal. A ameaça que a inclusão transgênera supostamente representa para o feminismo é significada pela ênfase textual recorrente no desaparecimento ou mutilação da lésbica como sujeito ou do próprio projeto político do feminismo (ibid., p.360). Elliot e Lyons argumentam que esta exclusão não se dá apenas em virtude de mulheres trans serem vistas como homens, mas também porque representam a instabilidade ou incerteza das fronteiras que estabelecem a divisão sexual, e, portanto, a própria unidade imaginária da comunidade feminista e lésbica.

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Beatriz Pagliarini Bagagli

Transfeminista e analista de discurso, pesquisa o campo de cuidado com a saúde e direitos coletivos para a população trans.