O que há em um post sobre o filme “Garota Dinamarquesa”

Sobre as retóricas de invalidação das identidades transgêneras — e a difusão do discurso TERF na boca do povo.

Me deparei com a seguinte imagem de uma publicação da página “Cinerama”, no Facebook:

A Garota Dinamarquesa (2015)

Não me interessa aqui discutir propriamente o filme em questão e sim alguns comentários da publicação.

Quem conhece o discurso TERF, do feminismo radical trans-excludente, certamente deve se familiarizar com o comentário de Victor D. Vieira. Se trata de um comentário sobre o filme que aborda a questão trans. E ao abordar as identidades trans podemos identificar a típica negação da autenticidade das identidades trans: um homem não poderia saber o que é ser uma mulher, pois pressupõe-se que apenas homens saibam o que é ser (autenticamente) um homem, e apenas mulheres saibam o que é ser (autenticamente) uma mulher; além disto, pressupõe que mulheres trans não sejam mulheres de verdade e sim homens. Logo, a reivindicação do reconhecimento da identidade de mulher por uma mulher trans é simplesmente negada, pois isso só poderia ser uma ilusão que não corresponderia à verdade.

Mas é assim tão simples como parece? Victor simplesmente supõe que seja algo muito evidente que um homem saiba o que seja um homem, sobre como um homem sente ser um homem sem supostamente se basear numa ilusão. Todos os homens são iguais, todos eles compartilham a mesma ideia sobre o que é ser homem? Há uma identidade masculina partilhada de forma homogênea por todos os homens, por todos aqueles que foram designados com o sexo masculino e socializados para serem homens? Eles realmente teriam uma experiência em comum que pudesse determinar o que é “ser” e “se sentir” homem? Victor simplesmente supõe que homens cisgêneros detenham a exclusividade da autenticidade da identidade de homem, e que mulheres cisgêneras detenham portanto a exclusividade da autenticidade da identidade de mulher.

A negação do reconhecimento da identidade trans, contudo, já esbarra numa problemática simplesmente não abordada: a cisgeneridade. A cisgeneridade é simplesmente pressuposta, assumida como uma condição de naturalidade. Não há assimetria nem reversibilidade entre o cis e trans. Seria evidente, a partir de uma perspectiva cisgênera, que homens “sejam” homens e portanto “saibam” espontaneamente o que é ser homem e por isso “se sintam” espontaneamente homens. Um continuísmo entre biologia, gênero assignado ao nascimento e socialização. Uma coisa levando necessariamente a outra de forma transparente, sem interferências, ruídos, contradições, heterogeneidades, incompletude… Mas não existem pedras no caminho? Sexo e socialização são mesmo um único destino? E se considerarmos que a crença de “um homem ser uma mulher” ser igualmente fundada em projeções imaginárias quanto um “homem ser um homem”?

Se o argumento de que um homem não pode saber o que é ser mulher é usado para invalidar a identidade de uma mulher trans como então uma pessoa cis pode saber o que é ser uma pessoa trans? Como podemos ter certeza de que um homem sabe o que é ser um homem e mulher mulher sabe que é mulher? Um homem sabe de tudo sobre o que é ser homem e nada sobre ser mulher e vice-versa? Mas e se admitirmos que muito sobre o que ser homem ou mulher se resumir a aspectos de incompletude subjetiva, por exemplo, de vazio? Como supor que homens não saibam sobre mulheres e mulheres sobre homens se admitimos que tanto homens quanto mulheres aprendem a ser homens e mulheres numa mesma sociedade?

A partir do momento em que nomeamos a cisgeneridade tudo começa a não soar assim tão evidente, e a negação da autenticidade de nossas identidades começa a ser finalmente vista como de fato ela é: a invalidação explícita da experiência transgênera e todo o teor coercitivo e violento que disso resulta, isto é, a invalidação das nossas experiências de vida enquanto pessoas trans em uma sociedade cisnormativa.

O que garantiria a certeza de que homens cis sejam homens ou de que mulheres cis sejam mulheres? O que garantiria que o “apenas uma caracterização” não seja atribuída a homens que acreditam serem homens, por exemplo? O que leva um homem acreditar que seja homem é algo tão diferente do que leva um homem trans, o o que leva uma mulher acreditar que seja mulher é tão diferente do que leva uma mulher trans?

Qual é o critério de verdade, qual é o critério deste critério? É a socialização baseada num sexo biológico? Quem define a incomensurabilidade e exclusividades dessas experiências legítimas de gênero? Quem determina que não haja contradição entre os limites destas categorias?

O que poderia garantir a exclusividade da experiência cisgênera como a única perspectiva legítima quanto ao gênero? Se admitimos que é a biologia e socialização, então certamente é algo que me parece muito frágil, pois pessoas trans... bem, também estamos vivendo em sociedade e também temos corpos biológicos. Até onde me consta, pessoas cis e trans compartilham da vida em sociedade e compartilham do caráter biológico dos corpos — não somos (ainda) ciborgues, nem somos de Júpiter ou Plutão.

Então essa assimetria do critério de autenticidade é tão frágil a ponto de não conseguirmos destituir assim tão facilmente quanto se esperava a autenticidade das experiências trans. Ora… basear-se seja na socialização, seja na biologia, para garantir o que seria critério da verdade é desde sempre se apegar aos mesmos estereótipos sobre o que é ser um homem ou uma mulher, é cair numa teia de paradoxos, de lógicas circulares.

É muito curioso vermos como a lógica de negação da autenticidade das identidades trans entra em contradição sem com que os os adeptos desta perspectiva ao menos se deem conta disso. Muitos interpelam pessoas trans com questionamento sobre o que é ser homem ou mulher esperando nos colocar em maus lençóis — sem se darem conta que eles mesmos na verdade são incapazes de se verem livres desses mesmos lençóis desagradáveis.

Acusam mulheres trans de acreditarem que ser mulher se resumiria a estereótipos de feminilidade — e apoiam-se em uma noção de sexo biológico que não se desprende de uma noção em que o sexo só adquire sentido se interpretado no interior de uma cultura. Se a legitimidade da posição cisgênera se sustenta em como um sexo “biológico” é socializado em uma cultura, porque supor algum tipo de assimetria em relação a autenticidade das identificações trans? Onde precisamente pode residir o argumento “lógico” da negação de autenticidade se não na própria prescrição moral (e portanto, não meramente “lógica”, pois não estamos descrevendo fatos) de que as transgeneridades não mereçam ser socialmente reconhecidas?

Assumem que pessoas trans só se reivindicam trans porque gostam de atividades ou roupas consideradas masculinas ou femininas. Ignoram que pessoas trans não estão esperando que pessoas cis as convença de que sejam na verdade cis porque estariam sendo alienadas por uma espécie de falsa consciência de gênero. Ora, mas qual é a condição de neutralidade e reversibilidade aqui? São feitas por acaso essas mesmas perguntas às pessoas cis esperando que as coloquemos em maus lençóis, esperando que caiam em contradição em relação a suas próprias identidades? Não, isso não acontece, curiosamente.

Assumem que pessoas trans desejam ser cópias eternamente imperfeitas de pessoas cis, de que desejamos ser inutilmente pessoas cis. Querem nos inculcar a má consciência de sermos cópias de um pretenso original. Ora, quando uma mulher trans se afirma mulher ela não pressupõe necessariamente que ela seja idêntica a uma mulher cis ou que tenha as mesmas experiências das mulheres cis. E quando justamente questionamos a ideia de que exista um original do qual derivariam as cópias tidas como imperfeitas?

Quando questionamos a exclusividade da cisgeneridade como a perspectiva única e absoluta pela qual definimos o que é cópia e original estamos reivindicando a autenticidade das experiências trans como trans. Dizemos que não precisamos de uma prótese de cisgeneridade que possa nos restituir a originalidade — simplesmente porque toda identidade de gênero é cópia de uma cópia que não possui original.

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