Porque a ‘disforia de gênero de surgimento rápido’ é ciência ruim

Uma estatística comumente citada de que 60% a 90% das crianças com disforia de de gênero crescem e não se tornam transgêneras é baseada em estudos profundamente falhos.

Por Florence Ashley e Alexandre Baril. Publicado em The Conversation e traduzido por Beatriz P. Bagagli.

Algumas décadas atrás, o sexólogo Ray Blanchard sugeriu que as lésbicas trans — mulheres trans que apenas são atraídas por outras mulheres — eram na verdade homens cuja heterossexualidade má orientada os levava a ser excitados pelo pensamento de serem mulheres.

A teoria de Blanchard foi posta de lado pelas análises cuidadosas e estudos científicos. Apesar de estar desacreditada, a teoria permanece popular entre os opositores dos direitos transgêneros.

Agora outra ideia está rondando os círculos anti-trans: “Disforia de gênero de surgimento rápido”. A teoria sugere que os jovens estão sendo enganados a reivindicar uma identidade trans antes deles realmente entenderem o que isso significa. Eles estão sendo supostamente influenciados pela internet, mídias sociais e seus colegas (pares).

A teoria é apresentada como uma crítica ao modelo de terapia afirmativa de gênero, que incentiva o apoio à criança na sua jornada de exploração e afirmação de suas identidades de gênero, sem expectativas quanto ao resultado.

Os recentes artigos de Debra Soh e Barbara Kay no The Globe and Mail e no National Post trazem essa noção anteriormente underground para o mainstream. Elas alegam que a disforia de gênero de surgimento rápido contradiz os cuidados afirmativos de gênero, que elas retratam erroneamente como forçando as crianças para a transição.

Essa ideia tem muito em comum com a teoria anterior de Blanchard.

Ela convenientemente suscita emoções viscerais, nos chamando para defender nossos filhos, tanto quanto o trabalho de Blanchard apelou para o nosso puritanismo sexual. Ela distingue as “boas”, as pessoas transexuais verdadeiras das pessoas “ruins” e falsas, permitindo que os proponentes afirmem que não têm nada contra pessoas trans — bem, pelo menos as reais.

Teorias que se apoiam na ideia de “contágio” para invalidar identidades marginalizadas não são novas. O mesmo aconteceu com outros grupos marginalizados, como para as pessoas gays, lésbicas e bissexuais. Já se pensou que os jovens estavam sendo influenciados pela “agenda gay” a erroneamente e imprudentemente reivindicarem uma identidade queer.

A ideia da disforia de gênero de surgimento rápido dá munição àqueles que estão ansiosos por se opor às políticas afirmativas de gênero. Melhor explicada pela transfobia e vieses do estudo de pesquisa, ela não suporta o escrutínio.

Aqueles que defendem a ideia de disforia de gênero de surgimento rápido retratam erroneamente a qualidade e a extensão da ciência disponível e a estrutura das terapias afirmativas de gênero.

Eles dizem que 60 a 90 por cento das crianças transgêneras crescem e não se tornam mais transgêneras. Isto é falso.

Pesquisa falha

Este conjunto de pesquisa é conhecido como “pesquisas de desistência”. Crianças que preencheram critérios diagnósticos para disforia de gênero são inscritas em um estudo. Depois de alguns anos, há uma reavaliação para ver se ainda são trans. Se forem, dizem que persistiram com sua identidade transgênera. Se não forem, dizem que elas “desistiram” dessa identidade.

O objetivo da pesquisa é estimar o número de crianças transgêneras que se tornarão adultas transgêneras.

A pesquisa de desistência usa critérios de diagnóstico desatualizados elaborados nos anos 80 e 90 que não refletem a ciência atual. Foram incluídas muitas crianças que definitivamente não são trans nos estudos de pesquisa. Em alguns estudos, cerca de 25 por cento e 40 por cento das crianças não preencheram os critérios para o diagnóstico, mas foram incluídas mesmo assim e posteriormente foram contadas como crianças que não permaneceram trans na fase adulta.

Pais marcham na Parada do Orgulho em Estocolmo, Suécia, em julho de 2016. (Shutterstock)

De acordo com a Dra. Kristina Olson, que oferece críticas cuidadosas aos estudos, até 90% dessas crianças provavelmente não se mostrariam trans se os pesquisadores simplesmente perguntassem: “Você é um menino/ menina?”. Este é um dos indicadores usados hoje para dizer se uma criança é trans ou simplesmente está em não conformidade de gênero.

E os 40 por cento das crianças que simplesmente se recusaram a participar foram assumidas pelos pesquisadores como não sendo mais trans. A estatística está simplesmente fora de sincronia com o estado atual do conhecimento científico sobre crianças trans.

Como a diretora de saúde mental do Centro de Gênero da Criança e do Adolescente da Universidade da Califórnia em San Francisco, Diane Ehrensaft, aponta em um artigo revisado por pares, terapeutas experientes são tipicamente capazes de dizer se uma criança pequena é transgênera — embora talvez não no primeiro relance.

Disforia de gênero de surgimento rápido

O estudo foi baseado em relatos de pais. Os participantes vieram de sites nos quais os relatos de disforia de gênero de surgimento rápido apareceram. O estudo tem um forte viés para grupos específicos e de forma alguma pode ser considerado representativo da população em geral. Em última instância, o estudo nos diz menos sobre adolescentes trans do que sobre os pais sendo entrevistados.

O fato de haver mais crianças que foram assignadas como mulheres ao nascer no grupo de crianças que se supõe ter disforia de gênero de surgimento rápido é usado como evidência de que isto não é um fenômeno natural, mas, ao contrário, revelador de que as meninas jovens estão fugindo de sua condição de mulher (womanhood) em virtude da pressão da misoginia ou dos colegas (pares).

O fato da maioria das crianças pesquisadas serem ditas meninas, pode, no entanto, ser explicada por outros fatos — incluindo o fato de que a não conformidade de gênero entre homens ter maior probabilidade de provocar consultas em uma clínica de identidade de gênero.

O objetivo da terapia afirmativa de gênero é escutar e acompanhar a criança quanto a sua identidade e expressão de gênero. (Shutterstock)

Além disso, as meninas em não conformidade de gênero têm sido historicamente sub-representadas nas clínicas, apesar da proporção de homens trans para mulheres trans ser de aproximadamente 50–50 na idade adulta. Mudanças nos padrões de referência poderiam ser apenas uma regressão de volta à média.

Mais e mais adolescentes estão saindo do armário. Isso não é uma surpresa nem é ruim. Se assumir enquanto transgênero, quase universalmente, carrega não apenas algum grau de estresse pessoal, mas exige que se aborde abertamente preconceitos sociais.

À medida em que as realidades trans se tornam cada vez mais amplamente conhecidas, torna-se mais fácil para as pessoas trans entenderem suas turbulências internas e se abrirem sobre o fato de que elas são realmente trans.

À medida em que fazemos amigos que são trans, recebemos ajuda deles para compreender a nós mesmos e apoio durante o processo de saída do armário. Devemos nos alegrar com o fato de que a visibilidade trans está ajudando mais pessoas a perceberem que elas são trans — nós mesmas incluídas, alguns anos atrás.

Terapia afirmativa de gênero

Ao invés de encorajar a criança a não ser transgênero e arriscar empurrá-la de volta para o armário, os terapeutas procuram apoiar a criança e seus pais durante todo o processo de exploração de gênero. Eles permanecem neutros em relação a se a criança deve ser trans ou não.

E quanto ao comportamento não-conforme de gênero, como o cross-dressing, que alguns terapeutas procuram desencorajar, por que não deixar a criança se expressar livremente?

Talvez elas não sejam trans. Talvez elas só queiram usar essas roupas e brincar com esses brinquedos. Muitas vezes você só pode dizer isso ouvindo a criança, embora elas possam não dizer isso em termos tão fáceis de entender.

Acompanhe a criança

As crianças transgêneras não são tratadas da mesma forma que as crianças cisgêneras (não transgêneras) por terapeutas com abordagem afirmativa de gênero. E as crianças transgêneras também não estão sendo todas tratadas da mesma forma também, porque cada uma tem desejos e necessidades diferentes.

O lema da terapia afirmativa de gênero é: “Acompanhe a criança”. Se isso significa acompanhá-la para a transição social e, no devido tempo, a transição médica, então que assim seja. Mas somente se é isso o que elas realmente querem.

Crianças transgêneras estão em boas mãos. Os terapeutas não estão agindo precipitadamente na ignorância de evidências científicas. Pelo contrário, a abordagem deles é aquela que foi construída ao longo de décadas de pesquisa e de acompanhamento de crianças trans.

A ideia infundada da disforia de gênero de surgimento rápido é uma pobre tentativa de manufaturar um novo pânico moral — baseada na mesma velha ideia de “contágio” — sobre crianças que não poderiam estar em mãos mais seguras.

Outra versão deste artigo, com os signatários, está publicada no Medium.

Autores

Alexandre Baril, Professor Assistente de Serviço Social da Universidade de Ottawa.

Declaração de interesse

Alexandre Baril não trabalha e nem faz consultoria para empresas ou organizações, nem possui financiamento de empresas ou organizações do qual possa se beneficiar com este artigo, além de não revelar afiliações relevantes além de sua nomeação acadêmica.

Transfeminista e analista de discurso, pesquisa o campo de cuidado com a saúde e direitos coletivos para a população trans.

Transfeminista e analista de discurso, pesquisa o campo de cuidado com a saúde e direitos coletivos para a população trans.