Quando os “desistentes” não são: des-desistência na disforia de gênero na infância e adolescência

(Leia também: Do all trans youth on puberty blockers go on to transition?, Trans youth treatment, ethics, and decision-making)

A progressão da disforia de gênero na infância historicamente foi caracterizada por dois caminhos de desenvolvimento conhecidos: a persistência, em que a disforia e a identificação de gênero cruzada continuam na adolescência e, tipicamente, levam à transição social e médica, e a desistência, na qual a disforia diminui e os adolescentes continuam a se identificar e viver com o gênero atribuído. Embora os estudos tenham descoberto que, em qualquer lugar, de 2-27% das crianças com diagnóstico de disforia de gênero vão persistir em se sentirem disfóricas (Steensma, McGuire, Kreukels, Beekman, & Cohen-Kettenis, 2013), essas descobertas têm limitações cruciais e foram amplamente mal interpretadas pelo discurso público.

Mudanças recentes nos critérios diagnósticos de disforia de gênero em crianças

Uma questão é que, até recentemente, os diagnósticos de transtorno de identidade de gênero na infância foram feitos usando critérios no DSM-IV e em edições anteriores. Esses critérios eram tão amplos que permitiam que crianças em não conformidade de gênero fossem diagnosticadas com distúrbio de identidade de gênero na infância mesmo quando não se identificavam com o outro gênero ou quiseram viver como do outro gênero. Por essa razão, a maioria das amostras de “crianças com disforia de gênero” provavelmente incluiu um grande número de crianças que na verdade não experimentaram disforia para início de conversa — o que não significa que sua disforia “cessou” na adolescência, mas sim que nunca esteve presente. Em relação às mudanças do DSM-IV-TR para o DSM-5, a American Psychiatric Association declarou:

Steensma & Cohen-Kettenis (2015) notou ainda:

A distribuição dos resultados de desistência e seus fatores associados

Além disso, há uma tendência entre o público de entender mal as afirmações, como a de que “80% das crianças com disforia de gênero vai desistir em sua disforia na adolescência” (já debatida pelos problemas de diagnóstico acima mencionados), pudesse significar que qualquer criança individualmente com disforia de gênero pudesse, da mesma forma, ter uma probabilidade de desistência de 80%. Mas estas são duas afirmações distintas, e a última afirmação não representa com precisão o que é conhecido sobre o curso de desenvolvimento da disforia do gênero na infância e adolescência.

Nos últimos anos, os fatores específicos associados à persistência ou à desistência da disforia de gênero na infância foram estudados em detalhes cada vez maiores. Steensma, Biemond, de Boer, & Cohen-Kettenis (2011) identificaram uma série de diferenças fundamentais entre aqueles cuja disforia persistiu ou desistiu após a infância, incluindo a força de identificação com o outro gênero e desejo de uma configuração de corpo sexuado diferente:

Steensma et al. (2013) resumiu os achados atuais sobre associações entre traços relacionados ao gênero na infância e a probabilidade de persistência de disforia de gênero na adolescência, observando que sintomas mais proeminentes de disforia e comportamento de gênero cruzado estavam associados a uma maior persistência:

O estudo veio a confirmar que a intensidade da disforia de gênero na infância, a identificação de gênero cruzado explicitamente verbalizada e a transição social na infância foram todas associadas a uma maior probabilidade de persistência na adolescência.

À luz desses inúmeros fatores conhecidos por estarem ligados à persistência ou à desistência, não é correto conceituar as “crianças com disforia de gênero” como se fossem um grupo homogêneo onde qualquer membro teria uma probabilidade aproximada de 80% de desistir na sua disforia. Um membro individual desse grupo combinado deve, ao invés disso, ser entendido ora como pertencente a um grupo que é muito improvável que persista ora como pertencente a um outro grupo que é muito provável que persista.

Casos hipotéticos de arrependimento de transição e casos reais de arrependimento pela não transição

Não obstante, um fenômeno muito persistente é a prevalência contínua de alegações bombásticas na mídia e por muitos indivíduos desinformados sobre os adolescentes com disforia de gênero serem fundamentalmente susceptíveis de serem cis e homossexuais, e que provavelmente se arrependerão da transição, com consequências supostamente catastróficas que vão do arrependimento à destransição e suicídio. Essas alegações são totalmente incompatíveis com as evidências. Nos processos diagnósticos atuais, as crianças com disforia de gênero podem experimentar os estágios iniciais de sua puberdade natal, pois sua resposta a esta e a presença ou ausência de angústia são tomadas como indicativas de que se devem ou não receber bloqueadores da puberdade (de Vries & Cohen-Kettenis, 2012). Não há relatos na literatura médica de arrependimento consistente entre os indivíduos que fizeram a transição na adolescência e um relato de um adolescente que recebeu estrogênio de forma não lícita por um membro da família sem qualquer supervisão médica e que agora se arrepende.

No entanto, um fenômeno do desenvolvimento da identidade de gênero na juventude é muito mais fundamentado do que essas preocupações em relação ao arrependimento pela transição, ao mesmo tempo em que recebem muito menos atenção: casos de de-desistência (ou “re-persistência”). Esses jovens expressam disforia de gênero em sua infância, relatam que sua disforia cessa na adolescência, mas depois descobriram que sua disforia não cessou e dão prosseguimento na procura de tratamento para transição. Pelo menos 7 desses casos são conhecidos por serem relatados na literatura médica e na mídia.

Zucker & Bradley (1995, p. 292) incluem um relato de caso de uma menina trans adolescente que inicialmente foi à clínica deles em Toronto aos 10 anos e afirmou ter desistido aos 15 anos, depois voltando aos 16 para explicar que ela havia mentido sobre ter desistido em virtude de constrangimento e que agora queria transição:

The Globe and Mail informaram em 2016 que outra menina trans que era atendida na clínica de Zucker e Bradley primeiro afirmou ser homem e gay aos 13 anos após uma extensiva pressão dos clínicos para se comportar como homem e, mais tarde, se assumiu como trans aos 15 anos, admitindo que havia ocultado seu gênero verdadeiro:

Mais notavelmente, Steensma & Cohen-Kettenis (2015) postularam que esses de-desistentes poderiam, de fato, constituir uma terceira via de desenvolvimento da disforia de gênero na infância. Entre as primeiras 150 crianças atendidas na sua clínica de identidade de gênero infantil e adolescente, 40 persistiram desde a infância até a disforia de gênero adolescente, enquanto 110 inicialmente pareciam desistir. No entanto, daqueles 110 desistentes aparentes, 5 voltaram a entrar na clínica com uma idade média de 24 anos:

Os autores concluem

Dados esses relatos, vale a pena considerar se as noções generalizadas de que as crianças disfóricas se tornarão adolescentes e adultos gays podem ser prejudiciais para esses jovens, pressionando inadequadamente o seu desenvolvimento e compreensão de seu gênero. É desconcertante que os casos hipotéticos de arrependimento de transição entre os jovens trans continuem a receber uma atenção excessiva da mídia e do público, mesmo que os casos observados de arrependimento pela não transição na adolescência pareçam ser muito mais comuns.

Referências

  • de Vries, A. L. C., & Cohen-Kettenis, P. T. (2012). Clinical management of gender dysphoria in children and adolescents: the Dutch approach. Journal of Homosexuality, 59(3), 301–320. [Abstract]
  • Steensma, T. D., Biemond, R., de Boer, F., & Cohen-Kettenis, P. T. (2011). Desisting and persisting gender dysphoria after childhood: a qualitative follow-up study. Clinical Child Psychology and Psychiatry, 16(4), 499–516. [Abstract]
  • Steensma, T. D., & Cohen-Kettenis, P. T. (2015). More than two developmental pathways in children with gender dysphoria? Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, 54(2), 147–148. [Abstract] [Full text]
  • Steensma, T. D., McGuire, J. K., Kreukels, B. P. C., Beekman, A. J., & Cohen-Kettenis, P. T. (2013). Factors associated with desistence and persistence of childhood gender dysphoria: a quantitative follow-up study. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, 52(6), 582–590. [Abstract]
  • Zucker, K. J., & Bradley, S. J. (1995). Gender identity disorder and psychosexual problems in children and adolescents. New York, NY: Guilford. [Google Books]

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Zinnia Jones é uma pesquisadora trans, escritora e ativista e a criadora do blog Gender Analysis. O seu trabalho centra-se em ideias sobre sociologia transgênera, saúde pública, transfeminismo e filosofia analítica. Ela atualmente escreve para blogs no The Orbit e já apareceu na CNN, Democracy Now e Autostraddle. Zinnia vive em Orlando, Flórida, com sua esposa e dois filhos, e trabalha em marketing de conteúdo.

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