Reflexão sobre a heterossexualidade flexível

Uma reflexão que fiz sobre homens que se entendem como heterossexuais flexíveis/passivos no meu perfil do facebook gerou uma repercussão nos comentários que eu não esperava.

Tudo começou quando decidi escrever sobre uma matéria do Buzzfeed:

Eu não teria nenhum problema com homens que fazem sexo com outros homens se dizerem heterossexuais. Sério gente. Tá rolando aquela matéria sobre esses homens.

Agora, sim, o problema está no fato das coisas que costumam acompanhar essa forma de identificação, isto é, o fato de que em grande parte das vezes esses homens se dizem héteros e sentem atração por homens reproduzem discursos problemáticos. Mas o problema é o discurso problemático que acompanha essa construção identitária, digamos assim, e não a construção identitária por si só.

De fato, há muita homofobia/bifobia/misoginia internalizada no discurso desses homens que sentem atração por outros homens e se dizem machos e héteros (to falando do que eu li na matéria do buzzfeed). Mas não é pelo fato em si deles se dizerem heterossexuais, é pela reiteração de discursos que colocam a feminilidade e a homossexualidade num local subalterno.

Parece quase indistinguível a construção da identidade pelo discurso desses homens da reiteração dessas normas. Mas não esqueçamos que sexualidade não é da ordem do empírico, e que exigir suposta coerência identitária é algo falho e também problemático (como expressa na ideia simples de que eles são “gays na realidade” por fazerem sexo com homens/sentirem atração por homens, como se tivéssemos que revelar a ilusão que acometeria esses homens e libertar eles dessa ilusão).

Sentir atração por homens de fato é algo que estrutura a identidade de muitos homens gays, mas seria incorreto pressupor que isso é que define em última instância e em todos os casos a homossexualidade, como se isso fosse um traço obrigatório e definitório por si só. Por incrível que possa parecer, vocês podem achar que eu estou muito “pós moderna” mas … heterossexualidade/homossexualidade não “requer” estritamente a realização empírica de práticas sexuais ou a experiência empírica da atração sexual. Heterossexualidade/homossexualidade envolvem processos de reconhecimento identitário que se realizam discursivamente.

Deste texto motivou discussões quase intermináveis sobre a condição de possibilidade da nomeação das sexualidades como um fato pretensamente objetivo ou não. Também motivou o aprofundamento da discussão sobre como as normas sociais de gênero e sexualidade funcionam neste “caso”.

Então talvez seja necessário nos perguntar de antemão o que seriam esses tais homens heterossexuais flexíveis. Digo isso por eles serem marcados no nosso imaginário por uma ambivalência bem característica:

Tais homens frequentemente parecem fazer comentários depreciativos em relação a gays afeminados — fazendo parecer que a identidade de heterossexualidade flexível se vincula necessariamente a esses discursos problemáticos, pra não dizer explicitamente misóginos. Parece difícil também distinguir a construção dessa identidade de “heterossexualidade flexível” da reiteração da heterossexualidade hegemônica e da própria internalização da homofobia. Eles também são retratados muitas vezes (ou melhor, se retratam assim) como traidores de suas esposas, isto é, são casados monogamicamente com mulheres cis e saem com outros homens, no “sigilo”, palavra bastante presente no vocabulário deles. Todo esse cenário nos faz construir em nosso imaginário a imagem de um homem “culpável” e no mínimo “criticável”, digamos assim.

Por outro lado, não há como notar que tais homens seriam de certa forma vítimas das heterossexualidade compulsória. E em certo sentido, seriam “vítimas” na medida em que falhariam na assimilação de um discurso de afirmação identitária do movimento LGBT. E por “falharem” de certa forma também seriam “culpados” da sua própria alienação.

Também por outro lado (complexificando ainda mais a questão) é preciso nos perguntar sobre a posição que nos colocamos quando fazemos a “crítica” da construção da identidade da heterossexualidade flexível desses homens. Isto é: em que lugar nos colocamos quando dizemos que esses homens são “vítimas” da heterossexualidade compulsória por não serem capazes de assumir suas pretensas “verdadeiras identidades”? E vejam a passagem quase espontânea da vítima para culpado: são vítimas da heterossexualidade compulsória mas também são culpados por não serem capazes de assumirem suas identidades tal como nós, do movimento de afirmação identitária LGBT, preconizamos e somos capazes de fazer. Nos colocamos imaginariamente numa posição de quase exterioridade dessas normas… como se nós pudéssemos ser mais críticos das normas por nos assumirmos enquanto LGBTs do que os homens heterossexuais flexíveis. Como podemos dizer que esses homens só se dizem heterossexuais flexíveis em virtude de uma falta de consciência de si?

Se é correto dizer que para muitos desses homens essa designação é criada como reflexo irrefletido da heterossexualidade compulsória, isto é, muitos desses homens podem estar experienciando algum tipo de sofrimento psíquico em decorrência de um “problema interno de auto aceitação” que poderia ser trabalhado por eles próprios, eu me sentiria muito menos propensa em generalizar que esses homens deveriam quase que compulsoriamente se identificarem como homossexuais ou bissexuais e que eles só não o fazem em virtude de uma alienação em relação a eles mesmos. E se para alguns desses homens se relacionar com homens “no sigilo” não constituir fonte de sofrimento psíquico? Vamos ter que ensinar para eles que isso não é algo “correto” a se fazer e inculcar neles um jeito certo de ser (e de sofrer)?

Por isso eu gostaria de pensar que a noção de “heterossexualidade flexível” pode representar possíveis processos de resistência e contestação da norma heterossexual que a princípio não estamos dispostos a saber enxergar — para além da ideia vaga de que tais homens construiriam essa identidade tão somente reiterando, a partir de uma posição subalterna, normas a princípio criticáveis.

Primeiro de tudo: dizer-se “heterossexual flexível” não é a mesma coisa que dizer-se simplesmente “heterossexual”. Afirmar-se como heterossexual flexível é desde sempre se posicionar a partir da vulnerabilidade, pois a heterossexualidade flexível não será interpretada pela hegemonia discursiva como uma heterossexualidade plenamente “verdadeira”. Neste aspecto, dizer-se “hétero flexível” é praticamente dizer que não se é, de alguma forma, um hétero “verdadeiro”.

Demandar o reconhecimento de uma identidade não legitimada pelo discurso da verdade é se colocar em risco, isto é, o risco de não sermos reconhecidos pelo outro.

Vejam nesse sentido os comentários. Pois é, leiam os comentários de pessoas rindo. Se vocês perceberem que nós, que fazemos parte de um movimento LGBT que se pretende crítico e revolucionário, compartilhamos algum grau de semelhança com seguidores de bolsonaro, talvez seja melhor refletirmos um pouco mais sobre alguns afetos que temos em relação ao outro. Isto é… pode ser difícil identificar se aquela pessoa que está rindo dos héteros flexíveis é um proto-fascista ou um militante LGBT. A heterossexualidade flexível é, além de vulnerável, risível. Todos gozam com a possibilidade de desmascarar a verdadeira identidade de um hétero flexível.

Dizer portanto que o único “motivo” que levaria alguém a se entender enquanto hétero flexível seja o desejo de se incluir subalternamente na norma heterossexual é ignorar a tensão interna da noção de “heterossexualidade flexível”. Pensar a “flexibilidade” da heterossexualidade não deixará a heterossexualidade compulsória completamente intacta, ou seja, pensar a heterossexualidade em termos de flexibilidade não é algo indiferente à heterossexualidade hegemônica. Afinal de contas: a heterossexualidade compulsória, por definição, é inflexível. Há uma tensão aí, mesmo que contraditória. Coisa semelhante se aplica a designação “hétero passivo” ou “g0y”.

Evidentemente a defesa que fiz da heterossexualidade flexível não implica aderir e aceitar tudo o que esses homens dizem ou defendem. Por exemplo, o cara lá dizendo no print da matéria do Buzzfeed que o que te faz gay não seria transar com um homem e sim com vários homens é extremamente problemático, porque nega a identidade de muitos homens gays que não transam com vários homens. Ou ainda os héteros flexíveis que fazem questão de se relacionarem com homens casados ou de traírem suas próprias esposas.

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