Sofrimento como critério de exclusão: as formas de reconhecimento subjetivo pela “disforia” que precisam ser superadas

Sobre saúde e sofrimento de pessoas trans — compreendendo causas e origens

Transfóbicos acham que o movimento de pessoas trans estaria “incentivando” que pessoas trans façam cirurgias de redesignação sexual. Transfóbicos acham que essa cirurgias por si só irão causar depressão, ansiedade e tentativa de suicídio por quem opta em realizá-la. Então esses mesmos transfóbicos dizem que o “transativismo” ou os “teóricos queer” estariam incentivando com que pessoas tenham depressão e risco aumentado de suicídio. Não lhes ocorre que o sofrimento psíquico seja decorrente de exclusão social sistemática e o estigma que acompanha aquelas pessoas que ousam questionar os destinos do que se considera a verdade dos sexos.

Vamos refutar esses mitos e distorções desonestas tão difundidos por religiosos e feministas trans-excludentes?

O movimento de pessoas trans não quer “incentivar” que pessoas façam cirurgias. Aliás, abordar esta questão nestes termos (de “influência”, “contágio social”) já é partir a partir de uma perspectiva equivocada, pois pressupõe a cisgeneridade como condição neutra ou natural e a transgeneridade como uma condição de suposta anomalia.

O movimento de pessoas trans quer que pessoas trans tenham acesso a condição de possibilidade de realização de cirurgias o que pode envolver ou não a escolha por cirurgias, sejam quais foram. A escolha por uma cirurgia e/ou alterações corporais deve ser entendida como uma escolha pessoal: e não uma escolha essencialmente “ruim” que precisaria ser prevenida a qualquer custo, como se ela representasse em si mesma um risco a vida da pessoa que opte por realizá-la.

Aliás, a maioria das pessoas trans nem ao menos deseja realizar cirurgias (ou todas as formas de alteração corporais relacionadas a transição) e estão enfrentando os mesmíssimos problemas de sofrimento psíquico (que decorrem das múltiplas formas de exclusão social) das pessoas trans que desejam realizar ou realizaram cirurgias ou outras formas de alteração corporal. Não ocorre a muitas pessoas imersas por uma perspectiva cissexista simplesmente o reconhecimento disto — simplesmente porque assumem que o sofrimento psíquico de uma pessoa trans se centra na possibilidade de arrependimento pela escolha de alterações corporais. É preciso justamente questionar isso.

Não é nada óbvio o fato de que pessoas trans tenham um alto número de tentativas de suicídio e problemas de saúde mental, e de que a causa destas questões de agravo à saúde mental resida na identidade transgênera em si. Tampouco é evidente a ideia de que a escolha por alterações corporais iria causar por si só sofrimento psíquico ou que pessoas só iriam optar por realizar tais operações porque elas estariam sofrendo ou porque elas são (auto)alienadas.

Pessoas trans realizam alterações corporais pois 1) nossos corpos, nossas escolhas, eis o princípio da autonomia corporal 2) realizamos alterações corporais não porque nós odiamos, mas, ao contrário, porque nós nos amamos.

Não existe uma única forma de ser transexual, e não existe obrigatoriedade de realização de determinado procedimento ou o cumprimento de determinado requisito para ser “transexual verdadeiro”. A ideia de transexualidade verdadeira é equivocada. A transexualidade, ao contrário dos mitos tão difundidos, não é uma forma de rejeição de si mesmo, que levaria à tendência de auto extermínio (como já disse equivocadamente uma portaria do SUS). Ao contrário, é a expressão do nosso auto-cuidado e amor próprio.

A questão é que justamente a origem dos problemas mentais que são ou estariam mais prevalentes em nossa população está no fato da sociedade não aceitar nem incluir pessoas transexuais nos espaços sociais e instituições: como não vamos ter problemas de saúde mental se somos expulsas de casa, da escola e do mercado de trabalho? Como não vamos ter problemas de saúde mental se não temos acesso a saúde e a alterações corporais assistidas por médicos que ofereçam um serviço de qualidade?

E o que pessoas transfóbicas defendem? Que as pessoas trans sejam impedidas de terem autonomia corporal. É uma péssima solução pra quem teria dito se importar com a saúde mental de pessoas trans. Se essas mesmas pessoas realmente estivessem interessadas na promoção de nossa saúde mental estariam lutando contra as exclusões e estigmas sociais, ao invés de tentarem controlar o que nós fazemos com nossos corpos.

Ainda sobre o sofrimento psíquico como reconhecimento (inter)subjetivo

Uma pessoa veio me dizer o seguinte: “a reflexão do radfem não é sobre pessoas trans que tem disforia de gênero e sim aquelas que optam por simular características do sexo oposto”.

A ideia que subjaz essa divisão entre pessoas trans — aquelas que teriam “disforia de gênero” e aquelas que supostamente não — seria uma espécie de sofrimento, e um sofrimento como substrato ontológico.

Existiriam aquelas subjetividades marcadas pela falta de escolha e aquelas que poderiam escolher. Aquelas para quem a impossibilidade de transição significaria uma impossibilidade mesma de existência (o que posiciona sofrimento insuportável enquanto justificativa de uma existência, da necessidade/importância de transicionar) e aquelas cujas existências não dependeriam ontologicamente desta injunção pela transição — sendo o sofrimento como balizador dessa necessidade.

Aquelas que não podem escolher seriam as verdadeiras trans. A ideia é de que você só pode ser trans de verdade se isso aparecer fenomenologicamente como não passível de escolha. Já aquelas que escolhem estariam marcadas pelo estigma da culpabilização e da perversão. Se você escolhe ser trans e com isso se mantém exposto à transfobia em virtude desta escolha isso só pode desvelar um enquadramento subjetivo marcado pela perversão.

Pois bem: nós precisamos nos desvencilhar de toda essa cadeia de pressuposição. Precisamos teorizar para pensar coisas diferentes, uma outra teoria de causalidade e necessidade, para além do estigma da perversão de uma escolha pela transgeneridade, para além de uma transgeneridade verdadeira calcada no sofrimento verdadeiro da “disforia de gênero”.

Faz parte do reforço de estigmas acreditar que existam as pessoas trans “certas” em contraposição às “erradas” — como se as pessoas trans “certas” fossem tão somente aquelas que não puderam “escolher” serem trans. Não é dentro destes moldes que encontraremos um modelo de reconhecimento interessante acerca de nossas identidades. Uma pessoa trans não deixa de ser trans pelo fato dela “escolher” ser trans. Precisamos URGENTEMENTE questionar e sair desses pressupostos culpabilizantes e estigmatizantes.

Tentar sustentar a justificativa das nossas formas de vida pelo viés da gramática de reconhecimento do sofrimento sob os moldes da “disforia de gênero” é algo que pode se tornar extramente limitador. É compreensível que formas de reconhecimento pelo sofrimento tenham sido historicamente usadas pelo nosso coletivo como forma de resistência, como mobilização de um essencialismo estratégico, como forma de algum reconhecimento, mesmo que precário frente a uma sociedade extramente transfóbica e excludente, de nossas demandas por existência. Porém, colocar que a única “necessidade” que levaria alguém a transicionar seria um sofrimento insuportável é uma ideia que precisa ser urgentemente superada. É preciso fazer a crítica quando este modelo de reconhecimento pelo sofrimento começa a ser usado contra nós, a partir do momento em que o próprio modelo de reconhecimento passa a ser usado para o nosso não-reconhecimento.

Para início de conversa: essa distinção entre pessoas trans cujo sofrimento seria “intrínseco” daquelas que supostamente não sofreriam se mostra não apenas falha em virtude de estabelecer um critério normativo para o sofrimento, como se o sofrimento pudesse ser medido, e ainda pior, medido em termos essencialistas como tudo ou nada (aliás, me parecem ótimas concepções acerca do sofrimento a fim de que se gere ainda mais sofrimento!) — mas se trata também de uma porta aberta para toda uma miríade de discursos cissexistas ou transfóbicos, todo um terreno fértil para que pessoas cis instrumentalizem o nosso próprio sofrimento como uma questão pretensamente ontológica para gerarem, paradoxalmente, mais sofrimento. E se eu disser que o fato de você me dizer que eu não sofreria é em si mesmo produtor do meu sofrimento?

Voltemos ao que diz respeito ao feminismo radical. Eu diria sem sombra de dúvidas que para boa parte (pra não dizer todo) do discurso radfem a validade dessa distinção nem se sustentaria pra início de conversa. Ser trans não seria outra coisa que não “simular característica do sexo oposto” sem nenhuma forma de substrato biológico ou ontológico (sofrimento entendido desde a gramática da disforia de gênero) que poderia servir de anteparo de sustentação. Clamar pelo nosso sofrimento pode não gerar nenhum tipo de comoção quando é a própria categoria humana que parece se colocar em suspensão quando falamos sobre pessoas trans. Pra muita gente não existiria nem ao menos qualquer sofrimento possível, por mais insuportável que seja, capaz de sustentar qualquer sentido de existência para mulheres trans.

E por outra razão: a linha que separaria as “verdadeiras” das “falsas” poderia ser a todo momento reconfigurada de forma re-incluir as “boas” na categoria das “ruins”, o enquadre que produz estigmas a todo momento invadindo este limite móvel incessantemente. Qualquer tipo de política que pretenda se basear por meio dessas divisões estará fadada ao fracasso.

Neste aspecto, vale lembrar que não é porque as LGBTs não foram suficientemente “respeitáveis” dentro dos padrões sociais vigentes ou porque supostamente não souberam “dialogar” com o discurso hegemônico que elas não conseguiram a tão almejada aceitação social. Ao contrário, o caráter abjeto das identidades LGBTs se estrutura previamente, ele nos é constitutivo.

Então não: a “reflexão” do radfem não é apenas sobre pessoas que “simulam” características do sexo oposto e que não sofreriam disforia; as considerações em relação às mais múltiplas formas de inconformidade à cisgeneridade que produzem estigmas incidem também sobre aquelas que supostamente cumprem religiosamente com os scripts de reconhecimento prescritos pela gramática do sofrimento — que no nosso caso se dá sob os moldes da “disforia de gênero”.

O transfeminismo é a luta de TODAS as pessoas trans. Pessoas podem “escolher” ou não ser trans — isto na realidade não importa pois é uma falsa problemática. O transfeminismo luta para que a “escolha” por ser trans faça sentido socialmente. O transfeminismo é sobre não tomar como natural essa suposta distinção entre quem seria trans de “verdade” — pois não teria em última instância, “escolha” — e aquelas de “mentira” — pois estariam escolhendo serem trans com base numa perversão.

O transfeminismo propõe algo completamente diferente. Reconfigurar o espaço que damos para o sofrimento, o estigma da perversidade e a perversidade em si mesma é fundamental. Transfeminismo é sobre reconhecer que o sofrimento de pessoas trans decorre precisamente do fato de nossas vidas não serem vistas como dignas de serem vividas, pelo fato, portanto, delas estarem excluídas de certos enquadramentos de reconhecimento subjetivo. Coisa completamente diferente do que parte do feminismo radical propõe, que não é nada mais do que o reforço deste estigma já constituído socialmente e que tanto circula em diferentes espaços. Essa perspectiva segundo a qual as existências trans necessitariam de próteses que nos restituam o sentido acaba incorrendo em última instância em culpabilização da vítima de transfobia. Não buscamos a justificativa pela qual pessoas possam ser trans simplesmente porque é algo que deveria se justificar a si mesmo.

Leia também:

A retirada da transexualidade da classificação de doenças e o sofrimento psíquico.

Sobre experiências produtivas/improdutivas de determinação/indeterminação e transgeneridade.

Sobre “destransição”, arrependimento e cisgeneridade.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store