Transceticismo: Gatekeeping e o valor do pensamento crítico

Por Natalie Reed. Tradução por Beatriz P. Bagagli. Leia o texto original, em inglês.

Estou de férias esta semana! Esta publicação apareceu originalmente na Skepchick. Foi a primeira coisa de blog que eu já escrevi! É meio agradável olhar para trás e ver o quão longe eu já cheguei. 🙂

Uma questão importante, interessante e cada vez mais comum na comunidade cética contemporânea é em que medida as preocupações sociais como o sexismo, a misoginia, o racismo, a homofobia, etc. devem ser incorporadas na agenda geral do ceticismo. Essas coisas realmente pertencem ao domínio dos céticos? Esses tipos de questões são algo que o ceticismo deveria abordar, ou mesmo pode abordar, ou as nossas energias seriam mais investidas em questões “tradicionais” como o teísmo, o Pé Grande, os psíquicos, a medicina natural, a homeopatia, o criacionismo e etc? As conexões entre esses diferentes tipos de questões e por que o ceticismo pode ser valioso para abordá-las não são muito difíceis de fazer. Afinal de contas, a mesma promessa de uma idade de ouro que nunca existiu e a crença no valor inerente da tradição pela tradição que muitas vezes justifica a crença no valor da “medicina tradicional” também podem levar a defender firmemente a santidade do casamento ou a nostalgia d’Os bons dias em que os homens eram homens, as mulheres eram mulheres e os estritos papéis de gênero eram brutalmente impostos. Mas há ainda uma hesitação generalizada em nossa comunidade para abordar tais questões diretamente.

Talvez o desejo de se afastar desses pressupostos mais complicados e talvez mais sutis, equívocos e enviesados sobre gênero, raça, sexualidade e assim por diante decorra porque eles são mais difíceis de discernir, mais difíceis de provar serem falsos com testes e fatos científicos. Mas eu imagino que uma grande parte disso também decorre do fato de que esses pressupostos estão mais intrinsecamente ligados à nossa cultura. Eles estão mais perto de nós, são mais inerentes, mais difíceis de identificar porque vivemos com eles por tanto tempo e, talvez, o mais importante, o fato deles serem difíceis de desafiar porque grande parte da nossa sociedade (e nossa própria identidade!) depende deles. A paquera é mais difícil de ser identificada quando está bem na frente do seu nariz, e fica mais difícil de se distanciar quando mais se está colado nela. Os custos sociais de aceitar verdades incômodas sobre raça e gênero são um pouco maiores do que os custos sociais de aceitar que não há monstro do lago Ness. Algumas suposições tornaram-se tão entranhadas na cultura que mesmo a nossa ciência e medicina podem ser capturadas na tentativa de reproduzi-las … tanto é que mesmo as pessoas genuinamente comprometidas com o valor da verdade objetiva se cegam pelas suas influências. É por isso que não só o ceticismo é valioso para abordar essas questões, mas abordá-las é valioso para o ceticismo. É difícil ser um pensador imparcial quando você está imerso em uma cultura tendenciosa.

E isso, depois de meus longos e divagantes parágrafos de introdução, nos leva ao nosso tema atual: a história de vieses e pressupostos sobre gênero no tratamento médico da transgeneridade.

Pode ser mais que um pouco capcioso falar com os céticos sobre ser cético em relação à ciência estabelecida. Esse é o modus operandi dos criacionistas, céticos sobre as mudanças climáticas, adeptos de teorias de conspiração sobre o 11 de setembro e homeopatas, afinal. A ciência é nossa amiga, e não a vilã, certo? A ciência acolhe dúvidas, perguntas e críticas. E, além disso, já não estamos no século XIX! Os cientistas não estão medindo crânios para determinar nossas predisposições de benevolência, melancolia ou vício. Não comparamos fenótipos raciais com animais e fazemos declarações sobre eles representarem traços evolutivos “inferiores”. A ciência já não é mais tendenciosa! É tudo boa ciência agora! …certo?

A parte complicada é que a ciência e a medicina são constituídas por seres humanos. Bobos, irracionais, sugestionáveis, maravilhosos seres humanos, possuidores das mesmas exatas falhas que tornam o ceticismo e o método científico necessários desde o princípio. Isso é tão verdadeiro hoje como sempre foi. E, como mencionado, quanto mais um pressuposto é arraigado, e o quanto mais se depende dele, mais difícil se torna o exercício do ceticismo.

O gênero é algo MUITO próximo de nós e que exerce uma influência enorme. Não apenas socialmente, mas para cada um de nós, como indivíduos. Todos queremos nos sentir seguros em nosso gênero, de que é estável e inabalável. É um dos aspectos fundamentais da nossa identidade. Você pode até dizer que é o primeiro aspecto da nossa identidade. Antes de qualquer coisa sobre quem somos ser estabelecida, a seguinte questão é realizada: é um menino ou uma menina? Os médicos querem manter a estabilidade desse aspecto da nossa identidade tanto quanto qualquer outra pessoa e estão igualmente implicados neste jogo, isso pode ser um obstáculo a uma abordagem verdadeiramente objetiva quando gênero não é suficientemente estável, binário e fixo. E, além disso, considerar a qualidade de vida do paciente também significa considerar como eles se encaixam no mundo e vivem nele.

A intersexualidade e a transgeneridade representam uma forte ameaça à estabilidade do gênero. Elas são os fios soltos no suéter confortável do binarismo de gênero. A existência de tais pessoas deixa claro que não podemos tratar os conceitos de “homem” e “mulher” como opostos binários, mutuamente exclusivos que permanecem fixos e estáveis. Eles se sobrepõem, se diluem um no outro, são mutáveis e compostos de todos os tipos de coisas diferentes que podem ocorrer em todos os tipos de combinações diferentes … cromossomos, hormônios, características sexuais primárias, características sexuais secundárias, identidade de gênero, expressão de gênero, orientação sexual, capacidade de diferenciar as cores “casca de ovo” do “bege”, etc. As mulheres trans também representam uma ameaça cultural adicional à suposição de que a masculinidade e a hombridade são naturalmente superiores e preferíveis sobre a feminilidade e a feminitude. Então, surge um problema interessante: como você lida com esses pacientes, atende suas necessidades, aborda as realidades que eles representam, mas ainda mantém as idéias de gênero sobre as quais se baseiam grande parte da nossa própria sociedade e identidades?

Desde o momento em que se tornou uma possibilidade médica, a transição de gênero teve que ser tratada não como um direito fundamental ou uma escolha, mas apenas como uma espécie de falta de opção extrema, a última escolha, a ser empregada somente quando todas as outras opções tiverem sido exaustivamente esgotadas e o paciente se encontrar à beira da autodestruição. Um sistema tinha que ser organizado para separar os “verdadeiros transexuais” que eram “realmente” membros do sexo com que se identificam de qualquer outra pessoa que simplesmente “quisesse” mudar de sexo ou estivesse apenas “confusa”. Ao mesmo tempo, esse sistema asseguraria que o limite entre os gêneros não fosse comprometido, que ainda existisse uma clara divisão com os homens de um lado e as mulheres do outro lado.

Então … entre na World Professional Association for Transgender Health (WPATH) e suas Normas de Atenção (Standards of Care). Esta organização criou um protocolo para médicos e cuidadores seguirem ao diagnosticar e tratar de pacientes transgêneros. Isso serviu para um duplo propósito. O propósito fofinho, amigável e totalmente razoável era fornecer critérios diagnósticos funcionais, um sistema para garantir que o paciente estivesse bem informado e capaz de gerenciar o enorme estresse da transição, garantindo que sua decisão fosse genuína e não afetada por outros problemas de saúde mental, protegendo a segurança e o bem-estar do paciente e assegurar que o paciente compreendia as implicações do tratamento e que ele tomasse sua decisão com temperança, cuidado e sem pressa. O outro, o propósito mais assustador e não-fofinho era garantir que o paciente se conformasse às expectativas sociais de gênero e as desafiasse o mínimo possível. Os padrões de cuidados da WPATH eram em grande parte sobre a proteção do paciente, mas também eram sobre proteger todas as outras pessoas do que o paciente implicava.

Um excelente exemplo do tipo de coisa que as normas de cuidado implicaram foi o requisito para a Experiência de Vida Real (doravante EVR, também conhecido como o Teste da Vida Real). Este é um requisito para que paciente viva em tempo integral como um membro do sexo ao qual ele esteja fazendo a transição por um certo período de tempo antes de que ele seja elegível para certos tratamentos. Isto é aparentemente para garantir que o paciente possa funcionar no novo papel, possa se adaptar à mudança e ser genuinamente mais feliz e confortável com a nova identidade. Há, no entanto, um aspecto sombrio, é claro: certificar-se de que o paciente é capaz de se conformar devidamente ao seu novo papel de gênero e a todas as expectativas que o acompanham. Uma versão especialmente problemática do requisito EVR foi que, inicialmente, era necessário até mesmo para que os pacientes fossem considerados elegíveis para a terapia de reposição hormonal. Isso foi extremamente perigoso para o paciente, pois poucas pessoas trans, mesmo aquelas que seriam capazes de terem “passabilidade” durante e após a transição, são capazes de cumprir esta exigência antes de tomar hormônios. A conseqüência é uma espécie de “eliminação” (indiretamente: por intolerância, discriminação e imposição social do binarismo) dos pacientes com maior probabilidade de serem visivelmente variantes de gênero e, portanto, antes que as premissas cisgêneras fossem ameaçadas. Isto protegeu as instituições culturais do gênero à custa de representar um risco para o bem-estar do paciente e, potencialmente, de sua vida. Embora este requisito particular (EVR antes dos hormônios) tenha sido amenizado na maioria dos países desenvolvidos, ainda está em vigor em alguns lugares, como no Reino Unido sob o NHS (embora eu saiba que ele possa ser contornado se você for capaz de acessar uma clínica particular, como a do Dr. John Curtis em Londres). Os requisitos da EVR ainda são amplamente exigidos para a CRS (cirurgia de redesignação sexual) embora … isso possa representar problemas para aquelas pessoas que têm identidades não binárias, genderqueer ou andróginas, aquelas que só estão interessadas ​​na CRS mas não estão interessadas ​​em transição social e para mulheres trans sapatonas e homens trans efeminados que podem ser considerados como não vivendo ou se apresentando de acordo com o sexo almejado.

O que significa mesmo exatamente viver e funcionar como mulher ou homem? É importante notar que os padrões de feminilidade e masculinidade que eram esperados para pessoas trans eram geralmente desatualizados e muito mais rigorosos do que os padrões que as pessoas cis deveriam cumprir. Uma mulher cis não precisa usar maquiagem todos os dias para que se considere que ela viva como uma mulher, não é? Essa disparidade nas expectativas de papel de gênero diminuiu ao longo do tempo, mas ainda está em jogo.

Outro problema notável com o sistema gatekeeping foi que os pacientes geralmente eram fortemente encorajados a cortar todos os laços com seu passado, arrumar um novo emprego, mudar para uma nova cidade, etc. Isso se justificava pela proteção à segurança do paciente enquanto ajudava a consolidar a nova identidade. Na realidade, muitas vezes seria um processo humilhante, traumático e emocionalmente devastador que deixava o paciente isolado, excluído de suas redes de apoio e muitas vezes desempregado (ou forçado no trabalho sexual). Mas não se preocupe! A recompensa é que nenhuma pessoa cis acabaria por ter que lidar com o desconforto de saber que alguém é trans, e nossa comunidade é silenciosamente jogada para a invisibilidade. Este foi talvez o exemplo mais claro de colocar o binarismo de gênero na frente das necessidades do paciente.

Onde a coisa fica legal e o ceticismo um pouco mais divertido, porém, é como o sistema gatekeeping acabou influenciando os próprios pesquisadores e médicos. Para ser considerada elegível para tratamento, uma pessoa trans teve que apresentar uma narrativa muito específica e atender a um conjunto específico de critérios. As mulheres trans, por exemplo, tiveram que ser sexualmente atraídas por homens, mas nunca se identificarem como gay ou serem sexualmente ativas como tal ou já terem participado fortemente desse “estilo de vida”. Elas tiveram que desejar uma cirurgia genital sem ressalvas, elas tiveram que apresentar uma personalidade e estilos femininos muito convencionais (como notadamente ser esperado que elas usem saltos para todas as consultas de psicologia), e elas não poderiam apresentar absolutamente nenhum transtorno co-mórbido. Mas a comunidade trans é pequena e é como uma panelinha… podemos brigar um pouco, mas tentamos cuidar uns dos outros e adoramos compartilhar informações. Não demorou muito para que as pessoas trans aprendessem a narrativa e a apresentação “esperadas” e que seu tratamento dependia de dizer aos médicos o que eles queriam ouvir. Assim, quando várias pesquisas e estudos foram realizados tentando entender a transgeneridade, a desconfiança sobre o sistema médico entrou em jogo e os sujeitos responderam com as respostas que lhes foram ensinadas a dar ao invés de suas experiências e sentimentos reais. Os dados distorcidos voltaram para os médicos e acabaram sendo usados ​​como prova de que seus pressupostos iniciais estavam corretos e como justificativa adicional para manter então o sistema de gatekeeping que produziu essas respostas desde o início.

Eles abordaram as questões de gênero e transexualidade a parir de um certo conjunto de suposições em mente, criaram um sistema que distorceu a realidade por meio do reflexo desses pressupostos e excluiu todos os indivíduo cujas narrativas contradissessem os pressupostos dos dados e depois tomaram os resultados que esse sistema produziu como prova de que os pressupostos estavam corretos o tempo todo. Não muito diferente de alguém que vai visitar um vidente com a suposição de que funciona, e oferece pistas de linguagem verbal e corporal para o vidente que o ajudam na sua leitura a frio, ignorando as falhas enquanto presta atenção exagerada nos sucessos e depois vai embora dessa experiência como se se tratasse de uma evidência, concluindo que a sua crença em poderes psíquicos estava correta o tempo todo. É por ISSO que o ceticismo é de grande importância para questões sociais como o cissexismo, e é por isso que essas questões são preocupações válidas para os céticos abordarem.

Ao longo da última década ou mais, o sistema gatekeeping finalmente começou a ruir. Embora isso seja em parte devido aos esforços do feminismo e do alargamento gradual da forma como entendemos e tratamos o gênero, e em parte devido ao árduo trabalho do ativismo e da luta por reconhecimento LGBT, também é devido a muitos médicos e cientistas bons e com a mente cética que foram capazes de reconhecer as realidades que não se encaixavam na narrativa, admitindo que as histórias de seus pacientes precisavam ser reconhecidas, em vez de sufocá-las ou tratá-las como condicionais para um tratamento potencialmente salvador de vidas, afirmando a importância da boa ciência, do pensamento crítico e do bem-estar de seus pacientes acima das realidades presumidas sobre sexo e gênero. À medida que as normas de atenção médicas começaram a se afrouxar, a epidemia prevista de arrependimentos de transições acidentais nunca aconteceu, a satisfação dos pacientes expressada com a transição melhorou e as atitudes culturais em geral começaram a mudar na direção da tolerância ao invés da hostilidade. As terríveis conseqüências que o modelo gatekeeping procurou evitar jamais aconteceram. Viva!

Então … eu acho que quando as questões sociais, como o trans feminismo e o ceticismo, são importantes umas para a outra ou quando as pessoas se perguntam sobre as conexões entre o meu ser cético, feminista e defensora dos direitos trans, eu apenas reflito sobre o fato de eu ter sido capaz de transicionar sem nunca ter que mentir para o meu médico ou distorcer a verdade. E eu posso ir às minhas consultas com uma camiseta e jeans, ao invés de me vestir como se eu estivesse indo para um baile ou tentando seduzir o pobre homem. Honestamente, não sei como poderia ser cética, feminista ou defensora dos direitos trans separadamente.

  • Nota de tradução

Gatekeeping refere-se a noção de que alguém ocupa um espaço de poder capaz de decidir ou determinar o pertencimento de outra pessoa a uma comunidade, identidade ou o acesso a direitos. No contexto médico relacionado às questões trans, refere-se à restrição do acesso às formas assistidas de alteração corporal, como acompanhamento hormonal e cirúrgico, negando o reconhecimento das identidades trans em suas singularidades e a auto-determinação com base na ideia excludente e ultrapassada do diagnóstico de “transexualidade verdadeira”.

Natalie Reed é uma mina trans queer, sobrevivente de (…), ex-viciada, escritora e ativista que atualmente vive em Vancouver, BC. Escreve sobre feminismo, teoria de gênero e direitos da população trans e queer, questões sobre estupro/assédio, problemas de dependência e drogas, dentre outras preocupações de justiça social, como direitos das trabalhadoras sexuais e dos prisioneiros. Gosta também de cultura pop e quadrinhos. Natalie pode ser encontrada em sincerelynataliereed@gmail.com, no Twitter @nataliereed84. Seu trabalho anterior pode ser encontrado no freethoughtblogs.com/nataliereed ou no skepchick.org.

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